Comentário
de Livro
Mitos históricos sobre a relação
entre ciência e religião
Historical myths about the relationship between
science and religion
ALEXANDER
MOREIRA-ALMEIRA1
1 Professor adjunto de Psiquiatria e Semiologia
da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
Diretor do Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde
(Nupes) da UFJF, Juiz de Fora, MG.
Recebido: 31/7/2009 –
Aceito: 1/8/2009
Moreira-Almeida A / Rev Psiq Clín.
2009;36(6):252-3
Resenha sobre o livro
Numbers RL (org.). Galileo goes to jail and other myths about science
and religion.
Cambridge Mass: Harvard University Press; 2009. p. 320.
Endereço
para correspondência:
Alexander
Moreira-Almeida. Universidade Federal de Juiz de Fora, Faculdade de
Medicina, Departamento de Clínica Médica, Centro de Ciências
da Saúde. Rua José Lourenço Kelmer, s/n –
Campus Universitário – Bairro São Pedro –
36036-330 – Juiz de Fora, MG.
E-mail: alex.ma@ufjf.edu.br
As pesquisas na área de espiritualidade
e saúde têm crescido de modo intenso ao longo da última
década, no entanto o avanço de pesquisas e debates frutíferos
nessa área é muitas vezes prejudicado pelos preconceitos
existentes em ambos os lados da discussão entre espiritualidade
e medicina1, bem como por alguns mitos históricos de confronto
entre psiquiatria e religião2. Essas dificuldades para o avanço
no entendimento da relação entre espiritualidade e saúde
parecem sofrer grande influência de uma crença mais ampla,
a da existência de uma incompatibilidade e animosidade históricas
entre religião e ciência. Aqui entra a importância
do livro em análise.
Estudos mais recentes em história da ciência têm
revelado a existência de muitos mitos tidos por décadas
como verdades incontestáveis. Atualmente, toda pessoa medianamente
intelectualizada “sabe” que religião e ciência
estão e sempre estiveram em perene conflito e que as instituições
religiosas sempre se constituíram em obstáculos ao desenvolvimento
científico. Entre os muitos exemplos citados em apoio a tais
conclusões, estão: a igreja cristã medieval defendia
que a Terra era plana, suprimiu o crescimento da ciência e proibiu
a dissecção de cadáveres; Giordano Bruno foi queimado
pela inquisição por defender a teoria heliocêntrica
de Copérnico; Galileu era um inimigo da religião que foi
torturado pela inquisição; o renascimento e a ciência
moderna surgiram como uma oposição a uma visão
religiosa da vida e do mundo; Darwin tornou-se materialista em razão
de seus estudos em torno da evolução por seleção
natural.
Essa visão de que a religião habitualmente se constitui
em um entrave ao avanço da ciência é uma ideia que
ainda persiste de modo muito forte, principalmente nos meios mais intelectualizados.
Tal perspectiva provavelmente explica boa parte da hostilidade algumas
vezes vista entre cientistas e religiosos, bem como o debate geralmente
acalorado sobre religião e ciência, debate habitualmente
repleto de emoções, palavras de efeito e ideologias, mas
muitas vezes esvaziado de racionalidade, equilíbrio e evidências
empíricas. Entretanto, há vários anos historiadores
da ciência vêm demonstrando que os “fatos” supracitados
como exemplos do contínuo conflito entre religião e ciência
são alguns dos muitos mitos relacionados ao tema. Tem sido percebido
que esses relatos são mais propaganda do que história,
uma narrativa que surgiu e tomou força no final do século
XIX. Entretanto, as conclusões dessa revisão histórica
contemporânea raramente têm extrapolado a torre de marfim
dos historiadores da área e pouco têm chegado ao conhecimento
do restante da comunidade acadêmica e da população
em geral.
Este é o grande mérito do presente livro publicado pela
editora da Universidade de Harvard: reunir em apenas um conciso livro
os principais resultados dos estudos contemporâneos sobre as relações
históricas entre religião e ciência no Ocidente.
A obra foi organizada por Ronald L. Numbers, que tem ampla experiência
tanto em história da religião como da ciência. O
autor foi presidente tanto da History of Science Society quanto da American
Society of Church History e atualmente é presidente da International
Union of the History and Philosophy of Science. O organizador contou
com a colaboração de 24 outros destacados pesquisadores
acadêmicos na área de história e filosofia da ciência
e da religião. Cada um dos 25 curtos capítulos do livro
é dedicado a um mito específico sobre religião
e ciência. Em cada capítulo, encontra-se uma breve contextualização
do surgimento do mito, seus desdobramentos e sua persistência
até os dias de hoje e, naturalmente, a demonstração
da falsidade do mito com base nos achados das mais recentes pesquisas
historiográficas. Para os interessados em maior aprofundamento
em qualquer um dos tópicos abordados, os autores oferecem notas
com uma farta bibliografia de estudos históricos recentes que
embasam as conclusões do livro. Naturalmente, muitas das conclusões
da obra podem ser passíveis de discussão entre pesquisadores,
mas, sem dúvida, a obra contribui para fomentar o debate, estimular
a pesquisa em fontes históricas primárias e um maior rigor
na análise do que tem sido publicado sobre o tema.
Nesse livro, percebe-se que as relações entre religião
e ciência, ao longo da história, têm sido muito mais
intensas e frequentemente muito mais frutíferas do que se poderia
imaginar. Para o leitor muitas vezes surpreso, descobre-se, entre outras
coisas, que a igreja católica foi uma das instituições
que mais fomentou a ciência ao longo da história, que a
igreja medieval criou dezenas de instituições duradouras
para formação e debates intelectuais da tradição
médico-científica greco-arábica (as universidades),
que muitos dos principais líderes da revolução
filosófico-científica do século XVII (Copérnico,
Galileu, Kepler, Newton, Descartes, Robert Boyle, Andrea Vesalius, Marcello
Malphigi etc.) eram, pelo menos em parte, movidos por convicções
espirituais em suas buscas intelectuais e científicas. A presente
edição da Revista de Psiquiatria Clínica publica
um artigo do editor do livro, Ronald Numbers3, no qual se discutem brevemente
alguns mitos que são abordados no decorrer da obra em análise.
Como esses mitos têm influenciado também nossa percepção
da história da medicina como um todo e da psiquiatria em especial,
essas discussões têm um vivo interesse para os profissionais
e pesquisadores na área da saúde.
Assim, o recém-lançado Galileo goes to jail and other
myths about science and religion é uma contribuição
de qualidade e muito bem-vinda para a elevação do nível
das discussões sobre espiritualidade e saúde e uma melhor
compreensão das complexas relações históricas
entre duas seculares senhoras muito distintas e influentes: ciência
e religião.
Referências
- Moreira-Almeida A. Espiritualidade e saúde: passado e futuro
de uma relação controversa e desafiadora. Rev Psiq Clín.
2007;34(supl 1):3-4.
- Moreira-Almeida A, Neto FL, Koenig HG. Religiousness and mental
health: a review. Rev Bras Psiquiatr. 2006;28(3):242-50.
- Numbes RL. Mitos e verdades em ciência e religião:
uma perspectiva histórica. Rev Psiq Clín. 2009;36(6):246-51.
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