Revisão da Literatura
Papel da proteína Tau na fisiopatologia
da demência frontotemporal
The role of TAU protein in the pathophysiology
of frontotemporal dementia
Vanessa J. R. de Paula1,
Fabiana M. Guimarães2,
Orestes V. Forlenza3
1
Aluna do Programa de Pós-graduação em Ciências,
área de concentração Psiquiatria da Faculdade de
Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).
2 Médica residente do
Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IP-HC) da
FMUSP.
3 Professor colaborador médico
do Departamento de Psiquiatria da FMUSP.
Recebido: 17/12/2008–
Aceito: 13/3/2009
Resumo
Contexto: Sob a denominação
demência frontotemporal (DFT) enquadram-se importantes síndromes
demenciais de natureza degenerativa progressiva que acometem os lobos
frontais e temporais em ambos os hemisférios. As DFTs podem ser
agrupadas, segundo seus aspectos clínicos dominantes, em variante
frontal, afasia progressiva não fluente e demência semântica.
A proteína Tau tem papel importante na patogenia desses transtornos,
e anormalidades conformacionais estão presentes em até
50% dos casos de DFT esporádica. Do ponto de vista neuropatológico,
as DFTs podem ser classificadas em Tau negativas e Tau positivas, estas
últimas também classificadas entre as tauopatias. Objetivo:
Neste trabalho será revisto o papel da proteína Tau na
patogenia das DFTs. Métodos: Busca simples no
Scielo e na Pubmed por meio das palavras-chave: “tauopatias”,
“demência frontotemporal” e “proteína
Tau”. Foram revisados os artigos publicados a partir de 2000,
e artigos anteriores de maior relevância, identificados a partir
das referências estudadas. Resultados: Dentre os trabalhos incluídos
nesta análise, 12 abordam as tauopatias, sendo dez originais
e sete de revisão. Foram identificados 20 artigos sobre DFT,
sendo 16 artigos originais e quatro de revisão. Conclusão:
A proteína Tau tem papel fundamental na patogenia das DFTs e
outras doenças neurodegenerativas. O conhecimento desses mecanismos
fisiopatológicos é o passo inicial para o desenvolvimento
de estratégias terapêuticas.
Paula VJR, Guimarães FM, Forlenza OV
/ Rev Psiq Clín. 2009;36(5):197-202
Palavras-chave: Proteína
Tau, tauopatias, demência frontotemporal.
Abstract
Background:Frontotemporal dementia
(FTD) represents an important group of neurodegenerative diseases, affecting
temporal and frontal lobes of both hemispheres. FTD can be divided into
three clinical subsyndromes: frontal variant, non-fluent progressive
aphasia, and semantic dementia. Abnormalities of the metabolism of Tau
protein are present in the physiopathology of FTD, and is found in approximately
50% of sporadic cases, supporting the classification of the FTDs into
Tau-negative and Tau-positive subtypes, the latter also called “Tauopathies”.
Objective: To review the role of Tau in the pathophysiology
of FTD. Methods: Review of the literature on FTD published
in the Pubmed and Scielo databases since the year 2000, using the keywords:
Tau, Tauopathies, frontotemporal dementia. Relevant references previously
published, as indicated in the reference list of selected articles,
were also included. Results: Through electronic search
we identified 12 articles addressing Tauopathies (ten containing original
data and seven reviews), and 20 articles (16 with original data and
four reviews) on FTDs. Conclusions: There is consistent
evidence in the literature to support the notion that Tau protein plays
a crucial role in the pathogenesis of FTDs and other neurodegenerative
dementias, and the knowledge on these mechanisms is necessary for the
development of more specific therapies.
Paula VJR, Guimarães FM, Forlenza OV / Rev Psiq Clín.
2009;36(5):197-202
Key-words: Tau protein, tauopathies, frontotemporal dementia.
Introdução
Em 1892, Arnold Pick descreveu casos clínicos
que cursavam com deterioração cognitiva, afasia progressiva
e mudanças de conduta social, sendo essas manifestações
associadas com a atrofia dos lobos temporais e frontais1.
Um século depois, os grupos de pesquisa de Lund, na Suécia,
e Manchester, na Inglaterra, publicaram critérios clínicos
e neuropatológicos para o diagnóstico da demência
frontotemporal (DFT), que ainda levam em consideração
a presença e a distribuição das células
(ou corpúsculos) de Pick2.
As DFTs têm recebido bastante atenção nos últimos
dez anos. Considerando-se apenas as formas degenerativas progressivas,
as DFTs figuram entre as causas mais comuns, suplantadas em frequência
pela doença de Alzheimer (DA) e pela demência por corpúsculos
de Lewy3. Segundo as manifestações
clínicas, o diagnóstico de DFT é usualmente proposto
para classificar, aproximadamente, 15% a 20% das síndromes demenciais.
De acordo com critérios anatomopatológicos, estima-se
que 3% a 10% dos casos diagnosticados postmortem correspondem
às DFTs, sendo esse número mais elevado (20%) nos casos
de demência degenerativa pré-senil4.
As DFTs podem ser subdivididas em três síndromes clínicas,
a depender da sintomatologia predominante, conforme mostra a tabela
1. As manifestações neuropsíquicas primárias
correlacionam-se com a distribuição anatômica das
lesões que caracterizam o processo degenerativo5;
não obstante, ao longo da evolução da doença,
uma parcela significativa dos pacientes desenvolve síndromes
secundárias ou terciárias, havendo sobreposição
das apresentações clínicas6.
Nas DFTs ocorre acometimento dos córtices frontal, pré-frontal
e temporal anterior. Seu início é insidioso, usualmente
ocorrendo entre 45 a 65 anos de idade, não havendo diferença
entre sexos. Os sintomas manifestam-se com alterações
da personalidade, perda do cuidado pessoal, estreitamento afetivo e
rebaixamento crítico. Os pacientes podem negar ou não
demonstrar preocupação com suas deficiências, e
apresentam mudanças importantes em suas crenças e comportamentos,
culminando com uma mudança ou exacerbação de traços
de personalidade. Tais manifestações podem estar presentes
anos ou décadas antes do diagnóstico de demência,
e tendem a se acentuar à medida que o processo degenerativo evolui.
A disfunção na região orbitobasal (ventromedial)
do lobo frontal está usualmente associada a desinibição,
impulsividade, labilidade emocional, estereotipias e comportamento antissocial
ou violento. Lesões nas estruturas orbitofrontais alteram o altruísmo,
a complacência, a direcionabilidade e a modéstia. Alguns
pacientes podem apresentar alterações do comportamento
sexual, com desinibição e gestos inadequados, incluindo
masturbação em público. Podem ocorrer estereotipias,
perseverações, sintomas obsessivo-compulsivos, hiperoralidade
e alterações no hábito alimentar. Alterações
de linguagem são frequentes, podendo ocorrer ecolalia, discurso
estereotipado ou mutismo. A ocorrência de compulsões, manifestações
delirantes e euforia fazem com que muitos pacientes sejam diagnosticados
inicialmente como portadores de transtornos psiquiátricos, como
o transtorno obsessivo compulsivo (TOC) e o transtorno bipolar. A apatia
é um sintoma que pode ocorrer em pacientes com alteração
no giro do cíngulo anterior e região medial do lobo frontal.
As alterações de comportamento predominam em pacientes
com alterações em hemisfério direito, enquanto
pacientes com alterações em hemisfério esquerdo
apresentam alterações de linguagem mais precoce. As funções
executivas e a memória operacional são as habilidades
cognitivas mais afetadas na demência frontal. A memória
propriamente dita e a capacidade visoespacial estão normalmente
preservadas nas fases iniciais da doença. Nesses casos, o desempenho
em testes de rastreio cognitivo, como mini-exame do estado mental, pode
ser normal mesmo em casos de doença manifesta7.
Estudos demonstram associação entre demência semântica
e atrofia do lobo temporal esquerdo. Diferentemente dos pacientes com
demência frontal, pacientes com demência semântica
apresentam uma atrofia mais circunscrita envolvendo predominantemente
os lobos temporais anteriores, córtex perirrinal, giro fusiforme
anterior8. Existe também
comprometimento do lobo frontal inferior, porém a atrofia temporal
está mais relacionada com a perda da função semântica.
O comprometimento principal desses pacientes é a quebra na formação
de conceitos. A apresentação inicial mais comum desses
pacientes é anormalidade na linguagem, que inclui a perda do
significado das palavras, dislexia e disgrafia. O discurso é
fluente e foneticamente correto, sem alterações de sintaxe
e prosódia. Entretanto, ocorre o uso de palavras genéricas
no lugar de vocábulos específicos, uso de expressões
e frases estereotipadas, troca de palavras e prejuízo na compreensão
das palavras. A memória de trabalho, as habilidades visoespaciais
e a capacidade de resolver problema não verbal usualmente estão
intactas. Inicialmente ocorre prejuízo na produção
de palavras, seguida da compreensão de palavras, compreensão
de sons, compreensão de objetos e, por último, ocorre
comprometimento do uso dos objetos associados às palavras aos
quais os significados foram perdidos.
Na afasia progressiva não fluente o paciente apresenta atrofia
assimétrica do hemisfério esquerdo. A apresentação
clínica caracteriza-se por dificuldade na pronúncia e
na fluência verbal e padrão de discurso anormal, muitas
vezes evoluindo para mutismo4.
Dificuldades de linguagem incluem agramatismo, parafasias de fonemas,
anomia, repetição, apraxia de discurso e agrafia7.
Para ser diagnosticado como portador de afasia progressiva não
fluente o paciente deve apresentar alterações de linguagem
como única alteração por, pelo menos, dois anos.
No início do quadro os pacientes mantém intacta suas funções
visoespaciais e são capazes de realizar as atividades do dia
a dia sem intercorrências9. As memórias semântica
e episódica estão preservadas, enquanto as funções
executivas e a memória de trabalho podem estar prejudicadas7.
Apesar de a DFT apresentar-se clinicamente com sintomas predominantemente
do lobo frontal ou do lobo temporal, aparentemente não existem
evidências claras entre as alterações histopatológicas
e as alterações clínicas específicas10.
O exame do cérebro de um paciente com DFT mostra atrofia simétrica
do lobo frontal, temporal ou ambos. Em alguns pacientes existe a assimetria
da atrofia, principalmente na região perissilviana. Também
pode ocorrer atrofia macroscópica dos gânglios basais e
perda da pigmentação da substância nigra. O exame
do córtex cerebral mostra microvacúolos e perda neuronal.
Na maioria dos casos, isso é mais evidente ao redor da camada
II do tecido cortical das regiões afetadas. Em casos mais avançados,
a perda neuronal e a formação de microvacúolos
é transcortical. Perda de mielina na substância branca
e gliose de astrócitos podem ser observadas. Pode ocorrer perda
neuronal significativa nos gânglios da base e substância
nigra.
A detecção de agregados proteicos anormais, tanto nos
neurônios quanto na glia, é necessária para o diagnóstico
neuropatológico. Entretanto, a distribuição e a
densidade dos agregados anormais de proteína nem sempre se correlacionam
com os achados clínicos. Outros marcadores, como perdas sinápticas
e neuronais nas áreas afetadas podem ter mais correlação
com o comprometimento motor e cognitivo11.
A patologia da DFT pode ser dividida em duas variáveis: Tau
positiva ou Tau negativa1.
O objetivo deste estudo é rever o papel da proteína Tau
na patogenia da DFT.
Métodos
Foi realizada uma revisão simples da literatura
médica e biológica sobre as tauopatias, em especial sobre
o papel da proteína Tau na DFT. Como fontes de consulta foram
utilizadas as bases eletrônicas Pubmed e Scielo, buscando-se artigos
publicados em periódicos científicos entre os anos de
2000 e 2008 (junho). Referências adicionais foram obtidas a partir
da leitura destes artigos, incluindo-se, de acordo com a sua relevância,
artigos publicados em anos anteriores. As palavras-chave pesquisadas
foram: proteína Tau/Tau protein, Taupatia/Tauopathy,
demência/dementia, frontotemporal/frontotemporal,
DFT/FTD, semântica/semantic, afasia/aphasia,
além dos epônimos Pick e Lewy.
Resultados
Características bioquímicas da proteína
Tau
A proteína Tau faz parte da família das proteínas
associadas aos microtúbulos (microtubule-associated proteins
– MAP). A principal função das MAPs é estabilizar
os microtúbulos pela agregação da tubulina12.
O gene da proteína Tau humana está localizado no braço
longo do cromossomo 17 (17q21) e possui 16 éxons. No cérebro
humano, a Tau é uma proteína solúvel, apresentando-se
em seis isoformas derivadas do splicing alternativo de RNAm13
e compostas por 352-441 resíduos de aminoácidos com peso
molecular aproximado de 37 a 46 KDa. O splicing alternativo
dos éxons 2, 3 e 10 resulta na presença de seis diferentes
isoformas que contêm, respectivamente, nenhuma, uma ou duas inserções
no segmento aminoterminal (Figura 1). O splicing alternativo do éxon
10 produz isoformas 4R ou 3R da Tau, dependendo, respectivamente, da
presença ou da ausência da sequência de aminoácidos
codificada por ele. A expressão das isoformas da Tau é
regulada durante o desenvolvimento. Em mamíferos, apenas as isoformas
pequenas da Tau são encontradas no cérebro fetal; essas
isoformas não apresentam nenhuma inserção 3R na
sua estrutura primária. Já no cérebro adulto, todas
as isoformas da Tau são expressas14.
A relação entre as isoformas 3R e 4R da Tau é geralmente
de 1:1, visto que alterações nessa razão estão
relacionadas a certos mecanismos de neurodegeneração15.
Ambas isoformas ocorrem nas DFTs, mas o predomínio da isoforma
4R é característico na degeneração corticobasal
(DCB), na paralisia supranuclear progressiva (PSP) e na doença
argilófica granular9.
Em células nervosas sadias, a proteína Tau é normalmente
encontrada nos axônios, ao contrário dos achados descritos
nas tauopatias, em que a proteína encontra-se distribuída
no corpo celular e nos dendritos. A proteína Tau pode ser encontrada
na forma solúvel ou insolúvel; esta última é
identificada nos filamentos helicoidais pareados (FHP), que é
o principal componente dos emaranhados neurofibrilares. Os FHPs apresentam
de seis a oito grupos fosfato por molécula de proteína
Tau, o que, em comparação com o grau de fosforilação
usual da proteína Tau em cérebros sadios (em torno de
dois grupos fosfato por molécula), permite afirmar que a proteína
Tau identificada nos FHPs encontra-se em estado hiperfosforilado16.
A proteína Tau controla a dinâmica dos microtúbulos
durante a maturação e o crescimento dos neuritos. Sendo
a maior proteína do citoesqueleto, a hiperfosforilação
da Tau afeta funções biológicas e morfológicas
nos neurônios.
A fosforilação da Tau in vitro se dá pela
ação de mais de dez quinases dirigidas aos seus sítios
de serina e/ou treonina. Essas quinases são divididas em dois
grandes grupos de proteína: proteína quinase dirigida
por prolina (proline-directed kinase) e proteína quinase
não dirigida por prolina. Nos tecidos cerebrais, o estado de
fosforilação da Tau resulta da ação conjunta
de várias quinases e fosfatases, muitas das quais operam coordenadamente
para regular sua fosforilação.
A proteína Tau também promove a interação
entre a actina e os neurofilamentos, o que sugere uma inter-relação
dos microtúbulos com outros componentes do citoesqueleto. A proteína
Tau interage com outras organelas citoplasmáticas, permitindo
a ligação entre microtúbulos e mitocôndrias.
Os domínios de projeção N-terminal da proteína
Tau permitem uma interação com a membrana plasmática
neuronal17.
A hiperfosforilação anormal da proteína Tau pode
ser o resultado do aumento da atividade das tauquinases, da subsensibilização
das suas fosfatases ou de ambos os mecanismos. O estado de fosforilação
da proteína Tau é modificado dinamicamente ao longo do
desenvolvimento. A Tau fetal mantém-se usualmente hiperfosforilada,
sendo essa característica atenuada à medida que ocorre
a maturação do sistema nervoso central, com a progressiva
ativação das fosfatases.
Função dos microtúbulos
Em todos os tipos celulares, os microtúbulos correspondem a uma
estrutura dinâmica, fundamental para o processo de divisão
celular. Em neurônios pós-mitóticos essa função,
evidentemente, se perde e os microtúbulos especializam-se na
manutenção da citoarquitetura e no transporte intraneural.
Portanto, nos neurônios, além de seu envolvimento na manutenção
da estrutura celular e nos processos que envolvem a plasticidade neurítica,
os microtúbulos também são essenciais para o transporte
axonal de organelas (mitocôndrias, retículo endoplasmático,
lisossomos) e de vesículas, nas quais são deslocados neurotransmissores
e proteínas do corpo celular para as sinapses distais18.
A polaridade neuronal também depende das propriedades dos microtúbulos
presentes nos axônios e dendritos. Nos axônios, os microtúbulos
encontram-se uniformemente orientados, graças ao papel da proteína
Tau. Nos dendritos proximais e distais, os microtúbulos apresentam
orientações diversas e são estabilizados por uma
proteína de alto peso molecular com função semelhante
à da Tau, denominada tubulina19.
A proteína Tau interage in vitro e in vivo
com as moléculas de a e ß-tubulina, constituintes unitários
dos microtúbulos, conferindo estabilidade aos seus polímeros20.
A fosforilação anormal da Tau compromete a sua capacidade
de ligação à tubulina, instabilizando a estrutura
dos microtúbulos21. Além
disso, a Tau hiperfosforilada compromete o transporte axonal e o metabolismo
das sinapses, causando disfunções que resultam em perda
de viabilidade celular, colapso do citoesqueleto microtubular e morte
neuronal14.
Proteína Tau nas doenças degenerativas
O recente progresso no estudo de algumas doenças neurodegenerativas
só foi possível graças ao entendimento de duas
linhas independentes de pesquisa: em primeiro lugar, o estudo da bioquímica
das lesões patológicas que definem e identificam a doença
por seus componentes moleculares. Em segundo lugar, o estudo de formas
familiais da doença, identificando genes defeituosos que causam
diferentes variantes patológicas. Em humanos com tauopatias,
a proteína Tau está presente na forma de filamentos anormais
insolúvel e hiperfosforilados13.
Doenças neurodegenerativas com inclusões de neurofilamentos
e/ou agregados de proteína Tau são classificadas em quatro
grupos: tauopatias, alfa-sinucleinopatias, doença poliglutamínica
e doenças com ubiquitina. O grupo das taupatias é o mais
prevalente, incluindo a DA, a DCB, a PSP e os diferentes subtipos de
DFT, incluindo a doença de Pick; todas essas doenças têm
em comum a presença de grandes quantidades de agregados de proteína
Tau22,23. Nas DFTs, agregados
de proteína Tau estão presentes em, aproximadamente, 40%
dos casos, geralmente em estado hiperfosforilado3.
Portanto, o acúmulo intracelular da proteína Tau hiperfosforilada
em neurônios ou células gliais é um importante marcador
biológico das tauopatias. Outras inclusões intracelulares
imunorreativas à Tau foram descritas em neurônios e células
da glia, correspondendo aos emaranhados neurofibrilares, os corpúsculos
de Pick e os acúmulos de ubiquitina.
Vários estudos demonstraram que a hiperfosforilação
reduz a capacidade de a Tau estabilizar os microtúbulos. Isso
compromete a dinâmica microtubular, afetando o transporte intraneuronal,
resultando em efeitos deletérios sobre diversos processos celulares.
Todos os defeitos na proteína Tau alteram o transporte axonal,
fatores vitais e necessários para a manutenção
da homeostase neuronal. A regulação da dinâmica
dos microtúbulos (estabilização e desestabilização)
é essencial para a preservação da morfologia e
da função da célula nervosa, da qual depende a
manutenção da viabilidade celular. A hiperfosforilação
da Tau favorece a formação de agregados, bloqueando o
trafego intracelular de proteínas neurotróficas e outras
proteínas funcionais, e resultando em perda ou declínio
no transporte axonal ou dendrítico nos neurônios.
O aumento da expressão da Tau também causa mudanças
na morfologia celular, retarda o crescimento e provoca alterações
importantes na distribuição de organelas transportadas
por proteínas motoras dependentes de microtúbulos. A hiperfosforilação
da Tau presente no citosol durante estágios iniciais de degeneração
neurofibrilar induz mudanças conformacionais que precedem sua
agregação. Existem algumas controvérsias sobre
a polimerização da Tau e sua toxicidade. Estudos recentes
mostram que essa agregação da Tau é tóxica
para as células, sua polimerização está
associada à perda da atividade biológica essencial para
promover a estabilidade e coesão dos microtúbulos. No
entanto, a defosforilação da Tau hiperfosforilada e dos
filamentos helicoidais pareados faz com que a proteína recupere
suas atividades biológicas normais15.
Os casos de DFT com parkinsonismo ligado ao cromosso 17 (FTDP-17) são
caracterizados pela presença e inclusão de filamentos
compostos por proteína Tau hiperfosforilada24. Até o momento,
mais de 30 mutações diferentes do gene que codifica a
proteína Tau foram descritas em pacientes com DFTP-1718.
Contudo, a frequência de mutação do gene codificador
da proteína Tau nos casos de DFT esporádica é baixa.
Em pacientes com histórico familiar da doença, a mutação
ocorre de 9,4% a 10,5% dos casos4,10.
Em pacientes sem o histórico familiar da demência, ocorre
uma mutação de íntrons e éxons no gene da
proteína Tau25. Na degeneração lobar frontotemporal
(DLFT), 60% dos casos esporádicos apresentam deposição
de Tau26, e com presença
de inclusões positivas para ubiquitina27.
Há, todavia, subtipos de DFT independentes da proteína
Tau. Na demência semântica, são identificadas, basicamente,
inclusões intracelulares positivas para ubiquitina e negativas
para a proteína Tau. Estas inclusões não têm
as características morfológicas dos casos familiares de
DFT. A maior parte dos pacientes com demência semântica
apresenta material intracelular rico em ubiquitina e proteínas
associadas à ubiquitina. Normalmente a ubiquitina é um
componente do proteassoma necessário para a degradação
proteica. Inclusões de ubiquitina foram detectadas em pacientes
com DFT, localizada no núcleo ou no corpo celular dos neurônios,
considerando um biomarcador para DFT28.
Na afasia progressiva não fluente, uma síndrome hereditária
ligada ao cromossomo 17, são descritas inclusões de ubiquitina, -sinucleina
e proteínas associadas
aos microtúbulos29.
Discussão
A proteína Tau tem um papel fundamental
na patogenia das DFTs e outras doenças neurodegenerativas. Um
dos grandes marcadores de degeneração nas DFTs é
a inclusão e agregação de filamentos da proteína
Tau em neurônios e células gliais, preferencialmente da
substância nigra, que aparece ulteriormente ao colapso do citoesqueleto
neuronal. A proteína Tau, associada aos microtúbulos,
participa de diversas funções essenciais, como polimerização,
estabilização e modulação da dinâmica
dos microtúbulos. O estado de fosforilação da Tau
é regulado ao longo dos protofilamentos de alfa e beta-tubulina,
durante a diferenciação neuronal; em neurônios maduros,
esse processo ocorre, preferencialmente, nos axônios. A proteína
Tau é altamente solúvel e sua conversão em peptídeos
insolúveis é o evento central na patogenia dessas doenças
neurodegenerativas. Não se sabe ao certo por que as inclusões
características das tauopatias esporádicas, com diferentes
isoformas da Tau, acumulam-se nas regiões acometidas do cérebro,
ou por que acometem preferencialmente populações de células
gliais ou neuronais. As mutações na FTDP-17 enfraquecem
a interação da Tau com os microtúbulos causando
desestabilização dos polímeros de tubulina. Na
DFTP-17 as repetições 4R e 3R envolvem interações
específicas, e um desequilíbrio na repetição
da isoforma 4R danifica o tráfego anterógrado dependente
de cinesina, onde a Tau e a cinesina se ligam aos microtúbulos
de forma competitiva. Como essas mutações atenuam significativamente
a ligação e a afinidade dos microtúbulos, elas
aumentam as concentrações efetivas de Tau livre, reforçando
a tendência de formação de agregados. Essa agregação
favorecida pela mutação da Tau pode influenciar a proteína
em seu estado normal e reforçar a redução de a
habilidade da proteína estabilizar os microtúbulos, realçando
a formação de agregados em FHP. O desequilíbrio
da relação 3R e 4R, formada por splicing alternativo
da Tau, é visto como uma alternativa terapêutica em tauopatias,
como oligonucleotídeos direcionados a junções do
éxons 10 em cultura de células PC12, reduzindo, assim,
o splicing alternativo do éxon 1030.
De qualquer modo, o conhecimento desses mecanismos fisiopatológicos
é o passo inicial para o desenvolvimento de estratégias
terapêuticas. Intervenções que inibam a agregação
da proteína Tau podem ser caminhos promissores no futuro, diante
de um cenário clínico atual em que praticamente inexistem
condutas farmacológicas eficazes.
Referências
- 1. Kertesz A, McMonagle P, Blair M, Davidson W, Munoz DG. The evolution
and pathology of frontotemporal dementia. Brain. 2005;128(128)
1996-2005.
- Brun A, Gustafson L, Passant U. A new kind of degenerative dementia.
Localization, rather than type is significant in frontal lobe dementia.
Lakartidningen. 1994;91(50):4751-7.
- Förstl H, Gratz S, Hahn U, Schwarz J, Jarnig M. Dementia with
Lewy bodies and reduced dopamine transporter binding indicates significant
acetylcholine deficiency. Dtsch Med Wochenschr. 2008;133 Suppl1:S11-4.
- Weder ND, Aziz R, Wilkins K, Tampi RR. Frontotemporal dementias:
a review. Ann Gen Psychiatry. 2007;6:15.
- Graff-Radford NR, Woodruff BK. Frontotemporal dementia. Semin Neurol.
2007(1);27:48-57.
- Kertesz A. Frontotemporal dementia/Pick’s disease. Arch Neurol.
2004;61(6):969-71.
- Boxer AL, Miller BL. Clinical features of frontotemporal dementia.
Alzheimer Dis Assoc Disord. 2005;19 Suppl 1:S3-6.
- Knibb JÁ, Kipps CM, Hodges JR. Frontotemporal dementia Review.
Curr Opin Neurol. 2006;19(6):565-71.
- Gladman JR, Jones RG, Radford K, Walker E, Rothera I. Person-centred
dementia services are feasible, but can they be sustained?. Age Ageing.
2007;36(2):171-6.
- Sjögren M, Andersen C. Frontotemporal dementia _a brief review
Mech Ageing Dev. 2006;127(2):180-7.
- Liscic RM, Storandt M, Cairns NJ, Morris JC. Clinical and psychometric
distinction of frontotemporal and Alzheimer dementias. Arch Neurol.
2007;64(4):535-40.
- Kikkawa M, Ishikawa T, Nakata T, Wakabayashi T, Hirokawa N. Direct
visualization of the microtubule lattice seam both in vitro and in
vivo. J Cell Biol. 1994;127(6 Pt 2):1965-71.
- Goedert M. Tau protein and neurodegeneration. Seminars in Cell
& Developmental Biology. 2004;15:45-9.
- Johnson, Stoothoff, 2004.
- Wang JZ, Liu F. Microtubule-associated tau protein in development,
degeneration and protection of neurons. Prog Neurobiol. 2008;10:1016-44.
- Brandt R, Hundelt M, Shahani N. Tau alteration and neuronal degeneration
in tauopathies: mechanisms and models. Biochim Biophys Acta. 2005;3;1739(2-3):331-54.
- Buée L, Bussière T, Bueé-Scherrer V, Delacourte
A, Hof PR. Tau protein isoforms, phophorylation and role in neurodegenerative
disorders. Brain Res Brain Res Rev. 2000;33(1)11:95-130.
- Cleveland e Hoffman, 1991.
- Goedert et al., 1991.
- Lindwall e Cole, 1984.
- Sanchez et al., 2001.
- Robert M, Mathuranath PS. Tau and tauopathies. Neurol India. 2007;55(1):11-6.
- Hasegawa M. Biochemistry and molecular biology of Tauopathies.
Neuropathology. 2006;26(5):484-90.
- Ballatore C, Lee VM, Trojanowski JQ. Tau-mediated neurodegeneration
in Alzheimer’s disease and related disorders. Nat Rev Neurosci.
2007;8(9):663-72.
- Taniguchi S, McDonagh AM, Pickering-Brown SM, Umeda Y, Iwatsubo
T, Hasegawa M, et al. The neuropathology of frontotemporal lobar degeneration
with respect to the cytological and biochemical characteristics of
tau protein. Neuropathol Appl Neurobiol. 2004;30(1):1-18.
- Sutherland GT, Nowak G, Halliday GM, Kril JJ. Tau isoform expression
in frontotemporal dementia without tau deposition. J Clin Neurosci.
2007;14(12):1182-5.
- Munoz DG, Ros R, Fatas M, Bermejo F, de Yebenes JG. Progressive
nonfluent aphasia associated with a new mutation V363I in tau gene.
Am J Alzheimers Dis Other Demen. 2007;22(4):294-9.
- Bolei L, Bussière T, Buée-Scherrer V, Delacourte
A, Hof PR. Tau protein isoforms, phosphorylation and role in neurodegenerative
disorders. Brain Rev Brain Res. 2000;33:95-130.
- Hernández F, Avila J. Tauopathies. Cell Mol Life Sci. 2007;64(17):
2219-33(1).
- Kalbfuss B, Mabon SA, Misteli T. Correction of alternative splicing
of tau in frontotemporal dementia and parkinsonism linked to chromosome
17. J Biol Chem. 2001;276:42986-93.
|