Revisão de Literatura
Religiosidade e espiritualidade no transtorno
bipolar do humor
Religiosity and spirituality in bipolar disorder
André Stroppa1,
Alexander Moreira-Almeida2
1 Professor
assistente da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Juiz
de Fora (UFJF).
2 Professor adjunto da Faculdade
de Medicina da UFJF.
Recebido: 23/1/2009 –
Aceito: 18/2/2009
Resumo
Contexto:
Nos últimos vinte anos, estudos sistematizados têm identificado
uma relação positiva entre espiritualidade/religiosidade
(R/E) e saúde, notadamente saúde mental. Entretanto, são
escassas as informações sobre R/E e transtorno bipolar
do humor (TBH). Este artigo objetiva revisar as evidências disponíveis
sobre estas relações. Métodos:
Foram cruzadas as palavras “bipolar”, “mania”
e “manic” com as palavras “religio*”
e “spiritu*” nas bases de dados PubMed e PsychINFO
em novembro de 2008. Foram encontrados 122 artigos publicados entre
os anos de 1957 e 2008. Resultado: Os estudos apontam
que pacientes bipolares tendem a apresentar maior envolvimento religioso/espiritual,
maior frequência de relatos de conversão e experiências
de salvação e uso mais frequente de coping religioso e
espiritual (CRE) que pessoas com outros transtornos mentais. Indicam
ainda, uma relação frequente e significativa entre sintomas
maníacos e experiências místicas. Os estudos mais
relevantes encontrados na literatura foram agrupados nesta revisão
em cinco tópicos: delírios místicos, religiosidade
e espiritualidade, coping religioso-espiritual, recursos comunitários
e comunidades tradicionais. Conclusão: O TBH
e a R/E possuem intensa e complexa inter-relação. Estudos
sobre práticas religiosas saudáveis, espiritualidade e
recursos de coping merecem ser ampliados, bem como sua relação
com o cumprimento do tratamento e as recorrências da doença,
as intervenções psicoterápicas e a psicoeducação
de base espiritual.
Stroppa A, Moreira-Almeida A / Rev Psiq Clín.
2009;36(5):190-6
Palavras-chave: Transtorno bipolar,
espiritualidade, religiosidade.
Abstract
Background: Over the past twenty
years, systematic studies have identified a positive relationship between
spirituality/religiosity (S/R) and health, especially mental health.
Although there is only scant information about S/R and BipolarDisorder.
Methods: The words “bipolar”, “mania”
and “manic” were crossed with the words “religio*”
and “spiritu*” in the databases PubMed and PsychINFO in
November 2008. It was found 122 articles published between 1957 and
2008. Results: The studies indicate that bipolar patients
have a greater religious/spiritual concern and involvement, more reports
of conversion, experiences of salvation and a more frequent use of spiritual/religious
coping, than people with other mental disorders. It also indicates a
frequent and significant relationship between manic symptoms and mystical
experiences, and changes in the intensity of faith after the onset of
the disorder. The most relevant studies in the literature were distributed
by subjects: mystical delusions, religiosity and spirituality, spiritual-religious
coping, community resources and traditional communities. Conclusion:
The number of studies about healthy religious practices, spirituality,
and coping among bipolar patients should be expanded, as soon as its
relation to accession, compliance with treatment and recurrences of
the disease. Greater attention should be given to investigate the relationships
between religiosity, religious coping, psychotherapeutic interventions,
and based-spiritual psychoeducation.
Stroppa A, Moreira-Almeida A / Rev Psiq Clín. 2009;36(5):190-6
Key-words: Bipolar disorder, spirituality, religiosity, religiosity
and spirituality in bipolar disorder.
Introdução
A religiosidade e a espiritualidade (R/E) são
aspectos importantes na vida da maioria das pessoas e na cultura da
maioria dos povos. Desde a antiguidade, espiritualidade e saúde
estiveram intimamente relacionadas. No ocidente, religiosos se ocuparam
dos cuidados a pessoas enfermas da idade média até bem
recentemente. No final do século XIX, a ciência se distanciou
da religião, diante da necessidade de se firmar como conhecimento
autônomo1,2.
Nos últimos vinte anos, estudos sistematizados e bem conduzidos
passaram a identificar uma relação positiva entre R/E
e saúde. Estudos sugerem que R/E possam ter efeito protetor sobre
a saúde e parecem influenciar a saúde física e
mental de várias maneiras: (a) por meio de regras de convivência
e do desestímulo a comportamentos prejudiciais à saúde,
como abuso de álcool e drogas, comportamento violento ou sexual
de risco; (b) por meio do uso de crenças religiosas como forma
de lidar com situações adversas, como uma doença;
(c) por meio da criação de uma rede de suporte social1-3.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima para
a próxima década um aumento considerável da participação
dos transtornos mentais entre as principais causas de anos de vida perdidos
por morte ou incapacidade. O transtorno bipolar do humor (TBH) estará
entre as dez principais causas4.
Objetivo
Revisar a literatura científica a respeito
da relação entre TBH e religiosidade/espiritualidade.
Método
As palavras “bipolar”, “mania”
e “manic” foram cruzadas com as palavras “religio*”
e “spiritu*” nas bases PubMed e PsychINFO, no mês
de novembro de 2008. Também foram consultados os textos e referências
citadas em Handbook of Religion and Health (Koenig, 2001) e
Handbook of Religion and Mental Health (Koenig, 1998). Para
a presente revisão foram selecionados primariamente os artigos
que apresentavam um desenho metodológico adequado e que investigavam
diretamente R/E e TBH.
Resultados
Foram encontrados 122 artigos publicados entre os anos de 1957 e 2008,
visto que os estudos realizados até a década de 1970,
em sua maioria, vêem na espiritualidade uma evidência de
adoecimento mental. Predominam os relatos de casos voltados para delírios
de conteúdo místico, crenças e conversões
religiosas, e os estudos realizados a partir da década de 1980
são mais abrangentes, envolvem outros aspectos da relação
R/E e TB.
Os estudos mais relevantes foram distribuídos por temas, são
eles: delírios místicos, R/E, coping religioso
e espiritual (CRE), recursos comunitários e intervenções
religiosas e comunidades tradicionais.
Delírios místicos
Autores clássicos da primeira metade do século XX apontavam
esquizofrenia e epilepsia como os transtornos mentais mais frequentemente
relacionados com sentimentos e sintomas religiosos. Emil Kraepelin,
em 1929, chamou a atenção para a significativa ocorrência
de sintomas religiosos entre pacientes bipolares5.
Em estudo transversal de 1966, Sedman e Hopkinson6
estudaram 12 pacientes, sendo sete esquizofrênicos e três
bipolares: avaliaram a ocorrência de vivências de influência,
alucinações, experiências de conversão e
mudanças de humor, acompanhados por vivências místicas
e religiosas. Durante o estudo, mudanças de humor ocorreram nos
três pacientes bipolares em vigência de mania e se fizeram
acompanhar por experiências místicas e religiosas. Quatro
dos pacientes esquizofrênicos apresentaram períodos de
elevação e depressão do humor, visto que em três
deles tais fases de mudança de humor foram acompanhadas também
por vivências místicas e religiosas.
Cothran e Harvey7, em estudo
transversal de 1986, compararam 23 pacientes esquizofrênicos e
18 bipolares, porém não identificaram diferenças
nas características dos delírios. A incidência de
delírios de conteúdo místico nesse estudo foi igual
em ambos os transtornos.
Brewerton8, em estudo transversal
de 1994, examinou 50 pacientes entre maníacos, esquizofrênicos,
esquizofrênicos com alterações eletroencefalográficas,
deprimidos em depressão psicótica e pacientes com sintomas
psicóticos secundários ao uso de substâncias, sendo
cada grupo representado por dez pacientes. Os delírios religiosos
foram encontrados em todos os transtornos, com predomínio em
pacientes maníacos, seguidos por pacientes com psicoses secundárias
ao uso de substâncias psicoativas e esquizofrênicos com
alterações eletroencefalográficas.
Em estudo transversal de 1999, Appelbaum et al.9
ao entrevistarem 1.136 pacientes agudamente internados encontraram 328
pacientes delirantes: de 93 pacientes com delírios religiosos,
35,5% tinham diagnóstico de esquizofrenia, 32,9% de transtorno
bipolar e 14,3% de transtorno depressivo.
Getz et al.10, em estudo
transversal de 2001, estudaram a influência da atividade religiosa
sobre a intensidade de delírios místicos em pacientes
cristãos com psicose. Examinaram católicos, protestantes
e pacientes sem afiliação religiosa e encontraram que
os pacientes protestantes experimentavam mais delírios que os
demais, embora não tenham ocorrido diferenças na intensidade
destes. Entretanto, quando os grupos foram recombinados, os pacientes
mais religiosamente ativos experimentaram delírios místicos
mais intensos.
Hempel et al.11, em
estudo transversal de 2002, examinaram 148 pacientes de uma instituição
penal, 18 deles glossolálicos. Segundo os autores, os pacientes
glossolálicos eram todos portadores de transtornos do espectro
bipolar, com delírios religiosos ou sexuais e hiper-religiosidade.
Alguns autores atribuem a pacientes bipolares a maior frequência
de delírios religiosos e místicos, outros relatam igual
prevalência entre bipolares e esquizofrênicos. Koenig3,
entretanto, aponta uma diferença qualitativa entre os delírios
de um e de outro: pacientes bipolares apresentam delírios religiosos
como intensificação de suas crenças normais e pacientes
esquizofrênicos têm delírios místicos autistas
e bizarros.
Religiosidade e espiritualidade
A R/E entre pessoas portadoras de transtornos mentais ainda têm
suscitado pouco interesse entre pesquisadores e clínicos. Uma
das mais importantes obras dedicadas ao TBH, em sua segunda e recente
edição, faz brevíssima referência à
relação entre TBH e R/E. Os autores ressaltam que o possível
efeito protetor de crenças e práticas religiosas não
tem sido estudado em indivíduos com TBH12.
Em 1969, nos Estados Unidos, Gallemore et al.5
realizaram um estudo transversal envolvendo 62 pacientes bipolares e
40 sujeitos-controle de igual idade e sem antecedentes de transtornos
mentais. Foi utilizada uma entrevista estruturada abrangendo questões
relativas à denominação religiosa, educação
religiosa, interesse e vida religiosa, além da postura familiar.
Foram observados períodos de dúvida e agnosticismo entre
os entrevistados. Os dados para os dois grupos foram comparados evidenciando
maior frequência de relatos de conversão e experiências
de salvação entre os pacientes bipolares, estivessem bem
ou em período crítico da doença.
De modo semelhante Koenig3 observou
entre pacientes bipolares uma maior incidência de experiências
místicas em suas vidas religiosas, o que poderia estar relacionada
ao incremento da afetividade.
Estudo transversal de 2003, realizado por Mitchel e Romans13
na Nova Zelândia, envolveu 147 pacientes bipolares. A esses pacientes
foi enviado um questionário de crenças religiosas, espirituais,
filosóficas e práticas religiosas. Receberam 81 (55%)
respostas completas. A identidade étnica predominante era de
origem européia (73,9%), seis (7%) eram da etnia maori e cinco
(6%) de outros grupos étnicos. A maioria (94%) indicou alguma
forma de compreensão religiosa, espiritual ou filosófica
a respeito do mundo e relatou uso de suas crenças para lidar
com sua doença, e 45% se disseram cristãos de várias
denominações. Quanto à prática religiosa,
os evangélicos foram mais envolvidos que as denominações
tradicionais e liberais. Aqueles que não estiveram bem nos últimos
cinco anos referiram maior envolvimento religioso, mas suas crenças
não os ajudaram a lidar com a doença. Não foram
observadas diferenças entre idades e gêneros. Encontrou-se
uma relação significativa e inversa entre intensidade
da crença e cumprimento das prescrições médicas,
aqueles com maiores crenças eram piores cumpridores das prescrições
médicas. Dezesseis pacientes (20%) referiram redução
de sua fé com o surgimento da doença.
Dantas et al.14, em
estudo retrospectivo realizado em 1999 no Brasil, investigaram o papel
das crenças e práticas religiosas sobre a doença
mental. O trabalho avaliou dados socioculturais e sintomas psicopatológicos
associados à presença e à intensidade de sintomas
com conteúdos religiosos. Para isso, revisaram duzentas internações
consecutivas realizadas em hospital universitário. A média
da idade dos pacientes foi de 34,4 ± 13,7 anos, com 46% de homens
(n = 92) e as denominações religiosas se distribuíram
entre católicos, 59,5% (n = 119), protestantes, 20,5% (n = 41)
e outros, 20,0% (n = 40). Quanto ao diagnóstico psiquiátrico:
esquizofrenia, 28,0% (n = 56), depressão, 24,0% (n = 48), mania,
19,0% (n = 38), neuroses e transtornos da personalidade, 9,5% (n = 19)
e outros, 19,5% (n = 39). Não houve diferença estatisticamente
significativa entre os grupos religiosos quanto ao diagnóstico
e a pontuação média na escala Brief Psychiatric
Rating Scale (BPRS). Os sintomas religiosos estiveram presentes em 28
pacientes (15,7%), em sua maioria com sintomas do espectro maníaco,
mostrando significativa correlação entre sintomas e estados
maníacos e experiências místicas.
Kirov et al.15, em
estudo transversal de 1998 na Inglaterra, investigaram em 49 pacientes
(33 esquizofrênicos e 16 bipolares) como a doença psicótica
influenciou sua fé religiosa e o quanto crenças e práticas
religiosas foram usadas como coping. A amostra teve importante participação
afro-caribenha e altos níveis de atividade religiosa. Dos 49
indivíduos, 34 se declararam religiosos e 15 não religiosos.
A maioria dos que se disseram religiosos relatou ter usado sua religião
como coping (61,2%) e foi observado aumento de crenças religiosas
em 12 indivíduos e diminuição em dois após
a doença. Três variáveis estiveram relacionadas
de maneira significativa à maior frequência de coping:
ser mulher, não branca e ter TBH. Consoante os autores, pacientes
com maior frequência de coping apresentaram melhor insight de
sua doença, resultando em maior adesão ao tratamento medicamentoso.
A experiência do adoecimento mental contribuiu para incremento
das crenças religiosas nesse estudo.
Soeiro et al.16 publicaram
em 2008, no Brasil, estudo transversal que investigou a relação
entre prevalência de transtornos mentais, denominação
religiosa e religiosidade. Avaliaram 253 pacientes de um hospital geral
aplicando um questionário sociodemográfico e um instrumento
para o diagnóstico de transtornos mentais (MINI-Plus): quanto
ao grau de religiosidade referido, 116 (43,2%) pessoas se disseram muito
religiosas, 129 (46,9%), religiosas, 27 (9,8%), pouco religiosas e três
(1,1%), não religiosas. A intensidade do envolvimento religioso
foi moderadamente associada com maior ocorrência de transtornos
mentais, sobretudo com o transtorno bipolar. Os pacientes não
religiosos e muito religiosos estiveram relacionados a maior adoecimento
mental quando comparados a pessoas religiosas.
Vários autores apontam uma menor ocorrência de sintomas
religiosos e místicos nos quadros depressivos, em uma relação
inversa entre sintomas religiosos e depressivos. Frequentemente, crenças
e práticas religiosas relacionam-se a menores índices
de sintomas depressivos. Os sintomas psicóticos em quadros depressivos
podem ter efeito difuso sobre as crenças religiosas das pessoas.
Predominam delírios de culpa, menos-valia e ruína, podendo
tomar um significado religioso para o paciente. As pessoas deprimidas
têm menor frequência de experiências religiosas e
menor crença em Deus, com maiores sentimentos de culpa pela falta
de fé ou perda de sua fé14,15.
Os estudos evidenciam a especial importância dos aspectos religiosos
e místicos na vida de pacientes bipolares, bem como a maior frequência
com que utilizam suas crenças religiosas para lidar com situações
de estresse e com sua doença. Gallemore et al.5 apontaram diferenças
entre certos aspectos da R/E em pacientes bipolares e controles normais,
como maior frequência de experiências de conversão
e salvação. Koenig3 apontou a maior incidência de
sintomas místicos e atribuiu às peculiaridades afetivas
da doença. Dantas et al.14
encontraram uma relação significativa entre sintomas de
mania e sintomas místicos. Kirov et al.15
encontraram entre as mulheres não brancas e portadoras de TBH
a maior frequência de uso de coping religioso e espiritual em
seu estudo. Soeiro et al.16
apontaram o TBH como o transtorno mental mais frequentemente associado
à intensidade do envolvimento religioso. Em suma, fica evidenciado
pela literatura disponível a significativa relação
do TBH com mais frequentes experiências religiosas e espirituais,
bem como maior influência de RE em suas vidas.
Coping religioso e espiritual
Coping pode significar lidar, manejar, adaptar-se ou enfrentar.
Trata-se de um processo de interação entre o indivíduo
e o ambiente, com a função de reduzir ou suportar uma
situação estressora que exceda os recursos do indivíduo.
Coping religioso e espiritual (CRE) é o modo como pessoas utilizam
sua fé em situações de estresse e dificuldade em
suas vidas18.
Reger e Rogers19, em 2002 nos
Estados Unidos, estudaram CRE entre pessoas com transtornos mentais
crônicos. O estudo investigou o número de estratégias
usadas, o tempo de uso e a percepção de ter sido ajudado.
Participaram do estudo 415 pessoas com transtornos mentais persistentes,
sendo 149 (36%) esquizofrênicos, 80 (19%) depressivos, 69 (17%)
esquizoafetivos, 58 (14%) bipolares e 59 (14%) com outros transtornos
psicóticos, do humor e ansiedade. Os resultados apontaram alta
prevalência e importância do uso de CRE na amostra. Para
os autores o CRE foi mais evidente, duradouro e variado em pacientes
esquizofrênicos, esquizoafetivos e bipolares. Esses pacientes
usaram o CRE por mais tempo e perceberam mais benefícios ao lidar
com frustrações e dificuldades diárias.
Phillips e Stein20, em 2007
nos Estados Unidos, investigaram o CRE e sua relação com
as variáveis demográficas e religiosas em um estudo longitudinal,
com um grupo-controle de estudantes universitários e duração
de um ano. Foram estudados 48 adultos jovens esquizofrênicos e
bipolares. Utilizaram três subescalas de RCOPE (Pargament et
al., 2000): uma de CRE positivo e duas de CRE negativo. Aqueles
com transtorno mental grave usaram as mesmas formas de CRE que os jovens
do grupo-controle. Foi, entretanto, estatisticamente significativo o
uso de CRE negativo entre os indivíduos com transtorno mental
grave no tempo inicial do estudo. Os autores chamam a atenção
para o fato de que pessoas com transtorno mental grave usam formas de
CRE positivas e negativas, mas formas negativas merecem atenção
por trazerem prejuízo significativo para os pacientes.
Pollack et al.21, em
estudo transversal de 2000 nos Estados Unidos, compararam 80 indivíduos
brancos e 42 negros bipolares hospitalizados e encontraram entre os
pacientes negros melhores recursos internos cognitivos, emocionais e
espirituais. O enfrentamento mais frequente de situações
adversas, uma visão mais positiva dos problemas e uma maior preocupação
religiosa durante a educação foram apontados pelos autores
como aprendizados que persistiram na vida adulta.
Em pacientes bipolares o CRE é frequentemente utilizado, muitas
vezes benéfico e variado. São utilizadas estratégias
de coping positivas que resultam em bem-estar, confiança e calma.
Mas, também, negativas que encerram culpa, medo e autodesvalorização,
sentimentos desvantajosos para a saúde psíquica. Atividades
psicoeducacionais podem orientar estratégias de CRE com importante
benefício para pacientes religiosos.
Recursos comunitários e intervenções
religiosas
Um importante salto de qualidade no tratamento do TBH foi dado com o
uso dos sais de lítio e outros estabilizadores do humor. Entretanto,
ainda são frequentes as reagudizações. Vários
autores têm demonstrado a importância da associação
de tratamento farmacológico com abordagens psicossociais21.
Pollack et al.22 chamam
a atenção para a relevância de questões,
como adesão ao tratamento e estressores capazes de precipitar
novos episódios. Vários fatores têm sido relacionados
com maior recorrência do TBH: suporte social inadequado, desajuste
em atividades sociais e de lazer, má qualidade das relações
interpessoais, principalmente familiares.
Chakrabarti et al.23,
em 1992, na Índia, estudaram 90 pacientes portadores de transtorno
do humor e observaram que a sobrecarga referida por familiares de pacientes
bipolares era maior que a referida por familiares de pacientes depressivos.
Essa maior sobrecarga era atribuída aos reflexos sociais causados
pela ocorrência da mania. O número de episódios
de mania, a duração da doença, a severidade e a
disfunção das fases foram determinantes da maior sobrecarga.
Stueve et al.24 em
1997, nos Estados Unidos, investigaram a sobrecarga percebida por cuidadores
negros, brancos e latinos de pacientes bipolares. Negros tenderam a
referir menor sobrecarga que brancos e latinos. Entre as causas apontadas
estava o maior envolvimento religioso identificado entre os negros,
o que funcionava como importante recurso de coping e rede de
apoio social e emocional.
Phillips et al.25,
em estudo aberto e não controlado de 2002, nos Estados Unidos,
utilizando recursos religiosos, métodos de coping e
técnicas de grupo desenvolveram um programa de tratamento dirigido
a pessoas com transtornos mentais graves. Foi selecionado um grupo de
dez pacientes, todos brancos, a maioria do sexo feminino, portadores
de vários transtornos mentais. O programa de tratamento foi constituído
por sete encontros semanais de 90 minutos de duração cada
e formato psicoeducacional. Foram abordadas questões relacionadas
a conflitos espirituais, recursos religiosos e sua influência
sobre a doença. Os participantes referiram maior compreensão
de seus sentimentos, de suas preocupações espirituais
e relações interpessoais.
A preocupação com o desenvolvimento de estratégias
psicossociais ganha cada vez maior importância para quem trabalha
e quem pesquisa TBH. A qualidade do suporte social, das atividades sociais
e das relações interpessoais tem sido relacionada com
menor recorrência da doença. É provável que
R/E façam diferença para pacientes bipolares ao proporcionarem,
com frequência, suporte social e relações interpessoais
de boa qualidade.
Comunidades tradicionais
Comunidades tradicionais, com frequência, relacionam transtornos
mentais a causas espirituais. Suas crenças acerca de saúde
e doença não são substituídas por conceitos
médicos, o que deve ser considerado na condução
do tratamento. Em estudo na Nova Zelândia sobre religiosidade
e coping pessoas da etnia maori referiram conflitos entre sua compreensão
de doença e o modelo médico ocidental, com prejuízos
para o cumprimento do tratamento13,26.
Raguram et al.26 em
estudo aberto e não controlado, em 2002 na Índia, descreveram
o tratamento de 31 pessoas com transtornos psicóticos graves,
dentre os quais três pacientes bipolares. Os pacientes foram tratados
em um templo hindu durante seis semanas, sem o uso de terapêuticas
biológicas. Os autores observaram redução de 20%
nos escores de sintomas psiquiátricos medidos pela escala BPRS.
Egeland et al.27, em
estudo aberto e não controlado realizado em 1983 nos Estados
Unidos, revisaram alguns dos fatores culturais mais comuns e relevantes
para o diagnóstico do TBH entre os Old Order Amish (amish).
Os amish formam uma comunidade religiosa cristã bastante
tradicional em seus usos e costumes. Um médico não familiarizado
com a cultura pode ter dificuldade para identificar uma fase de mania.
Também a temática religiosa de uma pessoa de outra cultura
pode ser facilmente tomada por vivência psicótica. O diagnóstico
de esquizofrenia em pacientes bipolares amish foi recorrente
por longo tempo, em razão de desconhecimento ou desvalorização
das diferenças culturais.
Muitos pacientes bipolares relatam conflito significativo entre médicos
e conselheiros religiosos sobre como entender e lidar com sua doença.
É frequente que psiquiatras, psicólogos e outros profissionais
de saúde mental ignorem ou critiquem crenças religiosas
de seus pacientes. É também frequente que líderes
religiosos tenham reservas em relação aos tratamentos
em saúde mental. Entretanto, pacientes psiquiátricos dão
grande importância às suas crenças e atribuem a
elas um papel importante no lidar com sua doença. Vários
autores têm identificado problemas para pacientes que têm
um modelo de doença muito diferente de seus médicos, resultando
em pior adesão ao tratamento. Os resultados sugerem ser essa
uma área que merece esforços no sentido de reduzir as
incertezas existentes15,17.
Comunidades tradicionais chamam a atenção para a diversidade
cultural e os paradigmas diferentes de doença. Os maori tiveram
menor adesão ao tratamento em razão de sua compreensão
de doença muito diversa do modelo médico ocidental. Os
amish foram diagnosticados erradamente por décadas em razão
das diferenças culturais não consideradas13,27.
Discussão
Mania e depressão são dois momentos
de um mesmo transtorno mental, e sintomas psicóticos uma evidência
da gravidade desses momentos (fases). Nesta revisão a literatura
frequentemente tratou o TBH como parte dos transtornos psicóticos,
e raramente o relacionou à depressão5-9.
Apesar da importante prevalência e gravidade do TBH, sua relação
com R/E ainda é pouco conhecida. Os estudos obtidos apontam maior
ocorrência de relatos de conversão religiosa e experiências
de salvação entre pacientes bipolares do que entre pacientes
com outros transtornos mentais, além de maior frequência
de delírios de conteúdo místico na vigência
de mania5,7,9,14-16.
Os pacientes bipolares estão entre aqueles que com maior frequência
utilizam CRE, mas não se sabe se predominam CRE positivo ou negativo.
Ainda se conhece pouco sobre estratégias de CRE usadas por esses
pacientes e como lidar com sua R/E em seu benefício13,19-21.
Não se sabe se R/E e CRE poderiam influenciar a adesão
ao tratamento e reduzir a ocorrência de fases de adoecimento ou
a necessidade de internação hospitalar em uma realidade
socioeconômica, cultural e religiosa como a latino-americana.
Não se encontrou na literatura qualquer estudo comparando R/E
e CRE em pacientes bipolares quando maníacos, eutímicos
ou depressivos, o que deixa em aberto muitas questões relacionadas
à doença e à religiosidade no TBH.
Diante da frequência com que pacientes bipolares se dizem religiosos,
estratégias de tratamento psicossocial de conteúdo espiritual
podem constituir-se em uma forma de auxiliar e dar qualidade ao tratamento
farmacológico19-21,26,27.
Os estudos acerca de comunidades tradicionais e grupos étnicos
abordam conflitos de paradigmas de doença entre pacientes e profissionais
de saúde. Estas pesquisas apontam a repercussão negativa
desse conflito sobre o tratamento, mas também apontam a possibilidade
de conciliação de estratégias de tratamento associadas
ao respeito a crenças e cultura locais. Os benefícios
de uma associação entre os recursos da medicina convencional
e outras tradições devem ser considerados em nome do bem-estar
de muitas pessoas com crenças religiosas e espirituais13,15,26,27.
Para alguns autores, delírios místicos são mais
frequentemente encontrados entre bipolares e esquizofrênicos.
Entretanto, existe na literatura de grande parte do século XX
um fator complicador no diagnóstico diferencial entre esquizofrenia
e TBH, com o TBH subdiagnosticado por muitas décadas. Na medida
em que o TBH vem sendo mais frequentemente identificado também
sua relação com R/E tem se tornado mais clara5-9,14-16,17.
Nesta revisão três estudos indicam igual ocorrência
de delírios místicos e religiosos entre pacientes bipolares
e esquizofrênicos. Outros cinco estudos apontam a coincidência
entre sintomas maníacos e maior ocorrência de sintomas
místicos6-9,11,14-16.
O estudo de Sedman e Hopkinson6
aponta para uma frequente coincidência entre a ocorrência
de delírios místicos e alterações do humor.
Apesar da pequena amostra, os três pacientes diagnosticados como
bipolares e três dos quatro pacientes diagnosticados como esquizofrênicos
apresentaram delírios místicos durante período
de exaltação do humor. Essa mesma correlação
entre delírios místicos e sintomas maníacos foi
apontada por Dantas et al.14
.
Koenig17 defende, em recente
revisão, que delírios religiosos existem em um continuum
entre crenças normais e fantásticas. Sua maior ocorrência
estaria ligada a fatores como diagnóstico, gravidade do transtorno
mental e intensidade do envolvimento religioso do indivíduo.
Conclusão
Existem evidências de uma maior preocupação e envolvimento
religioso e espiritual entre pacientes bipolares, bem como mais frequente
uso de CRE que em outros transtornos mentais. Em razão disso,
o número de estudos sobre práticas religiosas saudáveis
e recursos de CRE merece ser ampliado, bem como sua relação
com a adesão ao tratamento e as recorrências do transtorno.
Estudos longitudinais com pacientes bipolares examinados em suas fases
de mania, eutimia e depressão poderão esclarecer aspectos
ainda obscuros da R/E no TBH.
Estratégias psicoeducacionais e psicoterápicas que abordem
questões espirituais podem se constituir em importante instrumento
no tratamento de pessoas com TBH. É importante conhecer técnicas
de psicoeducação de base espiritual usadas com êxito
em outras culturas e desenvolver técnicas aplicáveis a
uma realidade afro-latino-americana como a brasileira, rica em suas
manifestações religiosas e no papel em que R/E exercem
na vida das pessoas e de suas comunidades.
Referências
- Moreira-Almeida A, Neto FL, Koenig HG. Religiousness and mental
health: a review. Rev Bras Priquiatr. 2006(3);28:242-50.
- Koenig HG, McCullough M, Larson DBB. Handbook of religion and health:
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2001.
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