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Investigando
o desconhecido: filosofia da ciência e
investigação de fenômenos “anômalos”
na psiquiatria
Remarks on the scientific exploration of “anomalous” psychiatric phenomena
Silvio Seno Chibeni1, Alexander Moreira-Almeida2 1
Professor livre-docente do Departamento de Filosofia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Endereço para correspondência: Silvio Seno Chibeni, Departamento de Filosofia – IFCH, |
| Resumo |
Contexto: A investigação de áreas controversas, como a das relações entre espiritualidade e saúde, levanta uma série de
questões sobre a prática científica que, se ignoradas, podem comprometer o desenvolvimento adequado das pesquisas. Objetivos: Apresentar brevemente alguns temas de filosofia da ciência que podem contribuir na investigação de aspectos
pouco explorados da realidade. |
| Abstract |
Background: Scientific research on controversial subjects, such as spirituality-and-health, raises several issues about
scientific activity that should be properly clarified for an adequate conduction of the investigations. Objectives: To highlight
some topics of philosophy of science that can be useful in the exploration of unknown, or poorly known, aspects of reality. |
| Introdução |
Na acepção mais comum dos termos que compõem o
título do presente artigo, ele expressa uma trivialidade: toda investigação é de algo desconhecido, caso contrário
não necessitaria ser investigado. No entanto, há um
sentido filosoficamente mais refinado em que o título
não se expõe a essa crítica. O ponto é de expressiva
importância para nossa compreensão da natureza da
ciência, e foi desenvolvido por diversos filósofos da
ciência contemporâneos, especialmente Thomas Kuhn. |
| Elementos da filosofia da ciência de Kuhn |
A idéia básica da concepção kuhniana de ciência, exposta originalmente em A Estrutura das Revoluções Científicas, de 1962 (Kuhn, 1970), é a de que o desenvolvimento típico de uma disciplina científica se dá ao longo da seguinte estrutura aberta: fase pré-paradigmática → ciência normal → crise → revolução → nova ciência normal → nova crise → nova revolução → ... A fase pré-paradigmática representa, por assim dizer, a pré-história de uma ciência, aquele período no qual reina ampla divergência entre os pesquisadores sobre quais fenômenos devem ser estudados e como devem sê-lo; sobre quais devem ser explicados e segundo quais princípios teóricos; sobre como os princípios teóricos se inter-relacionam; sobre as regras, os métodos e os valores que devem direcionar a busca, a descrição, a classificação e a explicação de novos fenômenos, ou o desenvolvimento das teorias; sobre quais técnicas e instrumentos podem ser utilizados, quais devem ser utilizados etc. Enquanto predomina tal estado Um ponto importante destacado por Kuhn é que enquanto o “mapa” paradigmático estiver se mostrando frutífero e não surgirem embaraços sérios no ajuste empírico da teoria, o cientista deve persistir no seu compromisso com o paradigma. A ciência normal é uma atividade altamente direcionada e, em certo sentido, seletiva. Essa restrição é essencial ao desenvolvimento da ciência. É somente centrando sua atenção em uma gama selecionada de fenômenos e princípios teóricos explicativos que o cientista conseguirá ir fundo no estudo da Natureza. Nenhuma investigação de fenômenos poderá ser levada a cabo com sucesso na ausência de um corpo de princípios teóricos e metodológicos que permitam seleção, avaliação e crítica do que se observa. Fatos e teorias estão em relação de interdependência, como em “simbiose”, os primeiros sustentando as últimas e estas contribuindo para a sua seleção, classificação, concatenação, predição e explicação. De posse de um corpo de princípios teóricos e regras metodológicas, o cientista não precisa a cada momento reconstruir os fundamentos de seu campo, começando de princípios básicos e justificando o significado e uso de cada conceito introduzido, assim como a relevância de cada fenômeno observado. |
| Explorando o desconhecido: o caso da psiquiatria |
Como tem acontecido com especialistas de outras áreas da ciência, psiquiatras que tomaram contato com as idéias de Kuhn as utilizaram para caracterizar alguns dos problemas teóricos e metodológicos referentes ao seu domínio. Considerando a situação da psiquiatria como um todo, Kendler, por exemplo, a descreveu como uma “‘batalha de paradigmas’ pré-científica” (2005, p. 433), e propôs diversas opções teóricas – filosóficas e médicas – que, segundo ele, poderiam encaminhar a área para uma situação mais confortável do ponto de vista da cientificidade. Focando a atenção em uma classe mais específica de questões, ligadas à chamada “mediunidade”, Almeida e Lotufo Neto propuseram que as investigações dessas questões, embora tenham sido empreendidas por diversos pioneiros da psiquiatria e da psicologia, foram abandonadas ainda “em um período ‘pré-paradigmático’” (2004, pp. 139-140). |
| Tipos de teorias científicas |
| Na ciência, podem-se distinguir dois níveis teóricos básicos em qualquer área de investigação: o nível fenomenológico e o nível explicativo.3 A palavra “fenômeno”, de origem grega, significa originalmente ‘aquilo que aparece, que é patente à observação’. É importante que esse significado original do termo seja preservado, evitando-se sua aplicação para se referir a processos que, na verdade, dependam essencialmente de uma teoria para serem estabelecidos (como o “fenômeno” da replicação do DNA). Usando, então, o termo na sua acepção própria, podemos notar que uma primeira coisa que o cientista pode fazer é registrar os fenômenos da forma mais rigorosa e minuciosa possível. Em seguida, pode notar que se produzem segundo certas leis, ou seja, que tais e tais fenômenos se seguem de tais e tais outros regularmente. Leis desse tipo são chamadas leis fenomenológicas. (Exemplos simples: a lei de Boyle, correlacionando pressão e volume em um gás diluído, mantido a temperatura constante; a lei genética de que pais de olhos azuis terão somente filhos de olhos azuis.) Há na ciência teorias inteiras constituídas unicamente de leis fenomenológicas, como a termodinâmica, a teoria da relatividade especial, a teoria darwiniana da evolução por seleção natural etc. Tais teorias são ditas teorias fenomenológicas. Ao correlacionar fenômenos, teorias desse tipo nos dão capacidade de predição, um dos dois grandes objetivos da ciência. Dada a lei de Boyle, por exemplo, é possível prever que a compressão isotérmica de uma massa de gás, até que seu volume seja reduzido à metade, resultará pressão dobrada. Mas predição não é tudo na ciência. O segundo grande objetivo clássico da ciência é o de fornecer explicações para os fenômenos, quer individualmente, quer já concatenados por leis de tipo fenomenológico. Entende-se usualmente que esse objetivo deve ser buscado apontando-se as causas dos fenômenos. Teorias que se proponham a especificar tais causas, a partir das quais se compreendam as razões da ocorrência dos fenômenos, são ditas teorias explicativas. Exemplos característicos desse tipo de teoria são a mecânica quântica, a mecânica estatística, o eletromagnetismo, a genética molecular e grande parte das teorias químicas. É importante observar que do ponto de vista científico essas duas classes de teoria não são conflitantes: é possível que um mesmo conjunto de fenômenos seja tratado por duas teorias, uma fenomenológica e outra explicativa, a segunda complementando a primeira quanto ao poder explicativo. Há de tal situação um exemplo notável na física, que é o par termodinâmica-mecânica estatística; na biologia, poderíamos citar a genética de Mendel e sua explicação pela biologia molecular. Filosoficamente, a distinção entre teorias fenomenológicas e explicativas é muito expressiva, na medida em que essas classes de teorias suscitam problemas de fundamentação bastante diferentes. Em princípio, o estabelecimento de uma lei fenomenológica requer apenas a observação cuidadosa, controlada e repetida dos fenômenos. A partir disso, a lei pode ser aceita “indutivamente”, isto é, por generalização, embora deva ficar claro que esse processo indutivo não garante a verdade da lei de forma absoluta. Ao contrário das inferências lógicas, as inferências indutivas são falíveis.4 Já as leis de teorias explicativas, em geral, não podem ser fundamentadas desse modo. Como já observamos, as teorias científicas explicativas buscam estabelecer os mecanismos causais dos fenômenos. Tais mecanismos, em geral, encontram-se além do nível fenomenológico, ou seja, não podem ser determinados por observação direta. São, tipicamente, postulados como hipóteses. A noção de hipótese é crucialmente importante na ciência. Ao contrário do que pensa o homem comum, a ciência não visa a eliminar as hipóteses, nem poderá fazê-lo, se quiser preservar o ideal clássico da busca de compreensão da Natureza. Não há um meio de, pela investigação, transformar uma hipótese científica – ao menos do tipo relevante para a presente discussão – em algo “provado”, e portanto que não seria mais uma hipótese.5 Diante disso, o que o cientista tem de fazer, auxiliado pelo filósofo, é desenvolver uma série de critérios que ajudem a determinar o estatuto epistemológico das hipóteses, ou seja, que possibilitem a avaliação das diversas hipóteses, enquanto pretendentes à verdade. Esse é um dos assuntos principais da filosofia da ciência, e não poderá ser detalhado aqui. Indicaremos, no entanto, alguns critérios gerais na seção seguinte, e, mais adiante, na seção Diretrizes para a exploração do desconhecido, faremos algumas sugestões específicas para lidar com áreas novas na ciência. 1 Entretanto, vale lembrar que a “revolução psicofarmacológica” surgiu por achados casuais que deram origem aos primeiros antidepressivos, estabilizadores de humor e antipsicóticos. A limitação heurística deste “paradigma psicofarmacológico” faz-se notar nas dúvidas sobre os pressupostos teóricos normalmente assumidos (Moncrieff, 2006) e na dificuldade em produzir novos fármacos realmente mais efetivos e que possam ir além de pequenas modificações na estrutura molecular dos fármacos já existentes (Freedman, 2005). |
| Avaliação de hipóteses científicas |
Adequação empírica; falseabilidade
6 Um dos maiores filósofos da ciência contemporâneos, Karl Popper, propôs que as teorias científicas se distinguem das pseudocientíficas justamente por sua falseabilidade. Só assim pode-se progredir na direção de um melhor conhecimento do mundo, por um processo incessante de conjeturas e refutações (Popper, 1968, 1972a, 1972b). |
| Integração teórica |
As ciências maduras não trabalham com a noção de hipóteses isoladas, mas de teorias, que devem ser entendidas não como meros agregados de hipóteses, mas como conjuntos de hipóteses integradas por vínculos lógicos e outros de natureza mais geral. Essas ligações interteóricas são crucialmente importantes para possibilitar a extração de conseqüências experimentais das hipóteses sobre os mecanismos inobserváveis dos fenômenos que isoladas, em geral, não permitem isso. Com a integração, não apenas elas se tornam falseáveis, mas, do lado positivo, podem receber apoio umas da outras, na medida em que o conjunto teórico exiba coerência. Isso acomoda o fato importante de que o suporte experimental a determinada hipótese muitas vezes é indireto, mediado por outras com as quais se concatenem teoricamente. |
| Hierarquização teórica |
Um aspecto da ciência relacionado ao anterior, e que foi enfatizado por Lakatos, em particular, é a hierarquização teórica. As hipóteses que formam a teoria de um bom programa de pesquisa são, tipicamente, arranjadas em uma escala, as mais importantes formam um núcleo rígido, que deve, tanto quanto possível, ser preservado de falseações. Surgindo evidência empírica desfavorável à teoria, no primeiro momento deve-se pensar em atribuir o problema às hipóteses menos centrais, que formam o cinturão protetor do núcleo. Essa estratégia representa uma regra de tolerância, que visa a dar uma chance para os princípios fundamentais do núcleo mostrarem sua potencialidade. Lakatos reconhece, porém, que essa atitude conservadora tem seus limites. Quando o programa como um todo mostra-se sistematicamente incapaz de dar conta de fatos importantes e de levar à predição de novos fenômenos, por exemplo, torna-se “degenerante”, deve ceder lugar a um programa mais adequado, “progressivo” (Lakatos, 1970; Chalmers, 1982). |
| Predição de fenômenos de tipos novos |
De todas as virtudes exibidas por uma teoria, a capacidade de prever a ocorrência de fenômenos de tipos novos talvez seja a que, individualmente, mais peso tenha na sua avaliação. Filósofos e cientistas têm argumentado que teorias científicas capazes de antecipar fenômenos inusitados não podem deixar de capturar a realidade, ainda que de forma incompleta e aproximada. Esse é um traço exclusivo das teorias de tipo explicativo, não estando presente nas teorias fenomenológicas, que simplesmente vêm a reboque dos fatos. Isso mostra que o maior risco epistêmico das teorias do primeiro tipo é compensado não apenas pelo sentimento de compreensão dos fenômenos, mas também, indiretamente, por ganhos preditivos. Muitos dos mais importantes avanços da ciência na exploração da Natureza não advêm de descobertas fortuitas, mas da ousadia teórica dos cientistas na concepção de hipóteses sobre os seus mecanismos inobserváveis (Chibeni, 1996, 2006). |
| Abrangência |
Embora a diversificação do conjunto de fenômenos a serem investigados represente, à primeira vista, um complicador, na verdade pode ser de grande valia na busca de uma maior unidade teórica, com vistas à implantação de um paradigma, ou programa científico de pesquisa. Isso por que há, grosso modo, uma relação inversa entre essa diversificação de fenômenos a serem explicados e o número de alternativas teóricas plausíveis. Em outras palavras: quanto mais diversificados e peculiares os fenômenos, maior sua capacidade de “filtrar” nossas hipóteses acerca do mundo. |
| Precisão |
| Quanto mais precisas as predições experimentais da teoria, maior a possibilidade de seu controle experimental, nos processos de confirmação e falseação. Teorias vagas e imprecisas são imunes ao eventual veredicto negativo dos testes a que sejam submetidas, e isso é séria desvantagem, pois desestimula a busca de teorias melhores. |
| Simplicidade |
Apresentando-se duas ou mais teorias para dar conta de um certo conjunto de fenômenos, devemos preferir a mais simples delas, supondo que seus méritos quanto a outros fatores sejam iguais. Muitos cientistas e alguns filósofos fazem a suposição de que as verdadeiras leis da natureza são simples, e que portanto a busca de teorias simples é, ao mesmo tempo, a busca de teorias que se aproximam da verdade. Essa associação entre simplicidade e verdade não pode ser estabelecida por nenhum tipo de provas, é claro. Por essa razão, certos filósofos a rejeitam como “metafísica”, e portanto sem valor para a ciência. No entanto, tem funcionado pelo menos como um ideal regulador da ciência. Assim, a simplicidade pode continuar sendo procurada por razões heurísticas ou pragmáticas.7 7 Uma análise clássica e bastante acessível de vários tópicos apresentados nessa seção pode ser encontrada em Hempel (1966) |
| Diretrizes para a exploração do desconhecido |
Posição perante fenômenos novos 8 Para exemplos da área de psiquiatria, ver Moreira-Almeida et al. (2005). Todo o campo dos estudos modernos sobre as relações entre religiosidade e saúde experimentou forte resistência em seu início, na década de 1980 (Swanson, 2003). |
| Reconhecer o nível da teorização |
Tratando, de agora em diante, dos casos em que a realidade dos fenômenos esteja comprovada e estabelecido seu não-enquadramento no paradigma vigente, o passo seguinte é o de conceber um referencial teórico novo para dar conta da situação. Isso é essencial. Nenhuma atividade científica minimamente frutífera pode reduzir-se à mera observação de fatos. Algumas vezes, porém, investigações de novas áreas foram prejudicadas pela suposição de que teorias deveriam ser evitadas, na crença ingênua, de inspiração positivista, de que os fatos falam por si mesmos. Ao empreender esse trabalho teórico, deve-se ter presente a existência dos dois níveis teóricos indicados na seção Avaliação de hipóteses científicas. Muitas vezes é uma boa estratégia tratar, inicialmente, de estabelecer leis fenomenológicas e, se possível, integrá-las por meio de uma teoria fenomenológica.9 Mas isso em geral não basta. A curiosidade científica pede explicações, e o preço para obtê-las é adentrar o delicado terreno das hipóteses. É aí que os critérios gerais enumerados na seção anterior tornam-se importantes. 9 Para um exemplo de estudo fenomenológico da correlação entre religiosidade e saúde mental, ver Moreira-Almeida et al. (2006). |
| Rejeição dogmática de possibilidades teóricas |
Mencionamos, na subseção Posição perante fenômenos novos, o perigo da rejeição dogmática de certos fenômenos. O apego cego, e muitas vezes não explicitado, a certas perspectivas teóricas ou filosóficas pode, igualmente, levar à rejeição indevida de determinadas propostas teóricas, sem que nem mesmo sejam examinados seus méritos intrínsecos. Freqüentemente se perde de vista que no campo das hipóteses em princípio tudo é possível e que, por mais enraizada que se ache uma hipótese ou teoria, pode um dia mostrar-se falsa; portanto, não pode servir de critério absoluto para o repúdio a teorias diferentes. A ênfase que Kuhn pôs nos processos históricos de ruptura teórica – as “revoluções científicas” – ajuda bastante a corrigir essa distorção. Há numerosos exemplos históricos de teorias julgadas por muito tempo como expressão definitiva da verdade, mas que depois acabaram substituídas por outras incompatíveis. Casos importantes bem conhecidos são, por exemplo, os das mecânicas de Aristóteles e de Newton, na física, e da teoria hipocrática dos humores, na medicina. 11 Para a clássica análise do assunto feita por John Locke (1632-1704), ver Chibeni (2007). Para uma recente e abrangente obra de questionamento do monismo materialista, ver Kelly et al. (2007). |
| Entusiasmo excessivo na aceitação de certas hipóteses |
| Problema oposto ao precedente é o da afoiteza com que certas hipóteses são admitidas como verdadeiras por seus criadores e simpatizantes, antes que passem por um exame minucioso, que leve em conta, entre outros, os fatores apontados na seção anterior. Essa atitude não só desacredita o pesquisador, enquanto cientista, como também prejudica a própria investigação ulterior da hipótese, que passa a ser malvista, mesmo quando tenha méritos intrínsecos. No caso das investigações teóricas sobre as evidências experimentais da associação positiva entre envolvimento religioso e saúde, por exemplo, vários pesquisadores concluíram que certas crenças religiosas estavam “comprovadas cientificamente” pelos fatos, ou que a associação positiva se deveria a algum mecanismo fora das leis naturais conhecidas. Embora sejam possibilidades que mereçam ulterior investigação, é importante também procurar explicar os dados experimentais a partir de perspectivas mais conservadoras, como as que evocam o suporte social, o otimismo, comportamentos mais saudáveis etc., associados a maior envolvimento religioso (Levin, 1996; Levin et al., 2005; Moreira-Almeida et al., 2006.). Por outro lado, uma recente revisão da literatura não encontrou evidências que sustentem empiricamente esses mecanismos biopsicossociais habitualmente propostos para a mediação da associação entre envolvimento religioso e saúde (George et al., 2002). Tal situação aponta para a necessidade de desenvolver melhores teorias explicativas para a área da religiosidade e da saúde. |
| Argumentos de autoridade |
Uma conhecida falha na avaliação de hipóteses é permitir que fatores relativos à autoridade de indivíduos ou grupos interfiram na avaliação, ou até mesmo tenham nela peso determinante. Evidentemente, cumpre reconhecer e respeitar a autoridade que certos pesquisadores conquistam por suas virtudes intelectuais e éticas, mas as hipóteses científicas devem ser aceitas ou rejeitadas por suas características intrínsecas (ver a seção precedente), e não por haverem sido propostas ou criticadas por tal ou tal cientista. Um dos traços mais importantes da revolução científica do século XVII, que colocou a ciência no período dito moderno, foi justamente o repúdio à autoridade como fonte primária de conhecimento. |
| Confusão entre gênese e justificação teórica |
A diretriz epistemológica precedente pode ser ampliada, para cobrir uma situação parecida: conferir peso excessivo ao contexto no qual a hipótese ou teoria seja concebida. Como já observamos, o desenvolvimento de novas hipóteses envolve, de forma essencial, a criatividade, e esta em geral não está determinada fixamente pelo pensamento racional, podendo ser estimulada por qualquer aspecto da experiência humana: sonhos, crenças filosóficas ou religiosas etc. 13 Diversas sugestões metodológicas para o estudo de estados alterados de consciência e de experiências anômalas são apresentadas em Almeida e Lotufo (2003). |
| Referências |
Almeida, A.M.; Lotufo Neto, F. - Diretrizes metodológicas para investigar estados alterados de consciência e experiências anômalas. Revista de Psiquiatria Clínica 30 (1):21-28, 2003. |
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Órgão Oficial do Departamento
e Instituto de Psiquiatria
Faculdade de Medicina - Universidade
de São Paulo