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Perspectivas históricas da influência da mediunidade
na
construção de idéias psicológicas e psiquiátricas
Historical perspectives of the influence of mediumship on the
construction of psychological and psychiatric ideas
Carlos S. Alvarado1 , Fátima Regina Machado2, Wellington Zangari3, Nancy L. Zingrone4 1
Professor-assistente de Pesquisa em Medicina Psiquiátrica, Division of Perceptual Studies – University of Virginia (EUA). Endereço para correspondência: Carlos S. Alvarado. Parapsychology Foundation, Inc., 228 East 71st Street, New York, NY 10021, EUA. Email: alvarado@parapsychology.org. |
| Resumo |
Contexto: A psicologia e a psiquiatria têm sido, ao longo do tempo, influenciadas pelos fenômenos estudados pelos pesquisadores dessas áreas. Diversas idéias sobre a mente e suas patologias foram desenvolvidas no contexto dos estudos de histeria, de dupla e de múltipla personalidades e dos fenômenos hipnóticos. Objetivos: Neste estudo, propomos que a mediunidade tenha influenciado tanto a psicologia quanto a psiquiatria de diferentes modos. Os fenômenos mediúnicos, tais como os transes e as mensagens verbais ou escritas atribuídos a espíritos de mortos, contribuíram para o desenvolvimento de vários importantes conceitos durante o século XIX e daí por diante. Métodos: Revisamos a literatura histórica da psiquiatria e da psicologia relacionada à mediunidade para identificar discussões sobre a mediunidade. Resultados: A mediunidade foi usada para defender ampla variedade de idéias sobre a mente subconsciente por pesquisadores como William B. Carpenter, Frederic W. H. Myers e Joseph Grasset. Tanto Pierre Janet quanto Théodore Flournoy se serviram da mediunidade para ilustrar formas de dissociação. Da mesma forma, a psicopatologia foi relacionada de diferentes modos à prática mediúnica, como foi discutido por Jean-Martin Charcot, Pierre Janet e Gilbert Ballet. Conclusões: Apesar de a mediunidade ser apenas um dos fatores que afetou a construção de conceitos como o de subconsciente, dissociação e psicopatologia, é necessário que sua influência seja mais reconhecida do que o é atualmente na historiografia da psicologia e da psiquiatria. |
| Abstract |
Background: Psychology and psychiatry have long been influenced by the phenomena their practitioners study. A variety of ideas about the mind and its pathology were developed in the context of studies of hysteria, double and multiple personality and hypnotic phenomena. Objectives: In this study we argue that mediumship influenced both psychology and psychiatry in different ways. The study of mediumistic phenomena such as trances and written or verbal messages claimed to come from deceased spirits contributed to the development of several important concepts during the nineteenth century and later on. Methods: We have reviewed the historical psychiatric and psychological literature relating to mediumship to identify discussions about mediumship. Results: Mediumship was used to defend a variety of ideas about the subconscious mind by figures such as William B. Carpenter, Frederic W.H. Myers, and Joseph Grasset. Both Pierre Janet and Théodore Flournoy used mediumship to illustrate forms of dissociation. Similarly, psychopathology was related in different ways to the practice of mediumship, as discussed by Jean-Martin Charcot, Pierre Janet and Gilbert Ballet. Conclusions: While mediumship was just only one factor affecting concepts of the subconscious, dissociation and psychopathology, its influence needs to be more recognized than it is currently done in the historiography of psychology and psychiatry. |
| Introdução |
Todos os que estão familiarizados com as histórias da psicologia e da psiquiatria reconhecem a importância de ampla variedade de fenômenos específicos e condições para o desenvolvimento de conceitos de mente e saúde mental. Tal foi o caso, durante o século XIX, da histeria, da dupla personalidade e da hipnose (Crabtree, 1993; Ellenberger, 1970; Gauld, 1992; Hacking, 1995). Tanto a histeria quanto a hipnose forneceram um foco para o desenvolvimento de explicações orgânicas e psicológicas que, independentemente de sua validade, alteraram profundamente o curso da psicologia e da psiquiatria (Carroy, 1991, 1993; Micale, 1995; Wright, 1980). * O uso do termo “subconsciente” neste trabalho é preferido ao uso do termo “insconsciente” pelo fato histórico de que os próprios autores discutidos o empregavam, ainda que em nosso meio o termo “inconsciente” seja muito mais popular graças à divulgação da obra de Freud e de outros autores de vertente psicanalítica. |
| Emergência da mediunidade durante o século XIX 3 3 Esta seção é baseada em trechos da dissertação de mestrado A causa dos espíritos: um estudo sobre a utilização da parapsicologia para a defesa da fé católica e espírita no Brasil, defendida por Machado, F.R. em 1996, pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da PUC-SP. |
Na primeira parte do século XIX, nos Estados Unidos, paralelamente ao florescimento de novos movimentos religiosos, como a Igreja Mormon (1830) e a Igreja Adventista (1831), crescia um grande interesse no chamado “transe mesmérico” – mais tarde chamado de transe hipnótico – especialmente nos intitulados “clarividentes mesmeristas”. As raízes desse interesse remontam ao século XVIII. 4 Vale notar que “há diferenças entre o chamado espiritualismo, desenvolvido principalmente na Inglaterra e Alemanha, e o chamado espiritismo kardecista, disseminado amplamente no Brasil. Os espiritualistas compartilham com os espíritas a crença na existência e na possibilidade de comunicação e ação dos espíritos desencarnados em nosso meio, mas ao contrário dos espíritas, os espiritualistas não crêem na reencarnação. Há também outras divergências quanto às informações supostamente transmitidas pelos espíritos aos médiuns acerca do mundo espiritual” (Machado, 2003, p. 17). |
| Mediunidade e mente subconsciente |
A partir da década de 1870, diferentes edições do livro De L’Intelligence, do crítico, filósofo e historiador francês Hippolyte Taine (1828-1893), incluíram discussões da mediunidade como sinalizadora de níveis ocultos da mente. Taine continuou a afirmar na edição de 1892 que as manifestações dos espíritos mostravam “a co-existência, no mesmo instante, no mesmo indivíduo, de dois pensamentos, duas vontades, duas diferentes ações”, uma consciente e outra não-consciente que, conseqüentemente, era “atribuída a seres invisíveis” (Taine, 1892, Vol. 1, p. 16). Levando sua análise para mais adiante, Myers sustentou que os automatismos poderiam ser os portadores de mensagens dos automatismos da própria mente e considerou o reconhecimento dessa qualidade dos automatismos como condução de mensagem um importante desenvolvimento conceitual. Estava, no entanto, realmente mais interessado em fazer notar que algumas dessas mensagens fossem verídicas (1889, p. 525). As produções automáticas da Sra. Newnham, discutidas em seu artigo de 1885, pareciam mostrar a transmissão de pensamento de seu esposo, o Reverendo Newnham 8. 8 Apesar de Myers (1903) ter se convencido de que os espíritos poderiam se comunicar por meio dos médiuns, correlacionava esse processo à mente subliminar. Ao escrever seu conhecido livro Human Personality and Its Survival of Bodily Death, referiu-se à Sra. Piper como um caso em que a mente subliminar era usada pelos espíritos desencarnados para se comunicarem (Myers, 1903, Vol. 2, p. 250), ainda que também tenha discutido a crença na possibilidade da possessão direta da médium por um espírito desencarnado. |
| Dissociação e mediunidade |
O interesse nas mesas girantes estava relacionado à dissociação ou à idéia de que os pensamentos, lembranças, atos motores e sensações físicas poderiam se separar de nossa consciência pessoal. O fato de que as pessoas poderiam produzir movimentos automáticos sem que estivessem conscientes disso foi considerado como apoio ao conceito de dissociação (Janet, 1889; Myers, 1885). 8 Apesar de Myers (1903) ter se convencido de que os espíritos poderiam se comunicar por meio dos médiuns, correlacionava esse processo à mente subliminar. Ao escrever seu conhecido livro Human Personality and Its Survival of Bodily Death, referiu-se à Sra. Piper como um caso em que a mente subliminar era usada pelos espíritos desencarnados para se comunicarem (Myers, 1903, Vol. 2, p. 250), ainda que também tenha discutido a crença na possibilidade da possessão direta da médium por um espírito desencarnado.
Uma outra importante figura ligada à relação entre mediunidade e dissociação foi o psicólogo suíço Théodore Flournoy (1854-1920), um dos pioneiros tanto da pesquisa psi quanto da psicologia da religião, que trabalhou, entre outros, com a médium Hélène Smith (pseudônimo de Catherine Élise Muller, 1861-1929) (1900) 17. A médium alegava ser a reencarnação de uma princesa indiana do século XV e também de Maria Antonieta, rainha consorte da França ao final do século XVII, além de poder viajar espiritualmente para o planeta Marte, de onde teria trazido ao conhecimento terrestre, por meio de desenhos e descrições, o estilo de vida dos marcianos e o idioma por eles utilizado. Flournoy interessou-se pelo caso e sobre ele realizou uma profunda e detalhada avaliação, valendo-se inclusive de especialistas em diversas áreas do conhecimento para auxiliar em suas observações, como o eminente lingüista Ferdinand Saussure, a quem convidou para realizar um estudo da alegada língua marciana. Flournoy chegou a dois tipos distintos de interpretação, ambos profundamente interligados posto serem resultado do psiquismo profundo dos médiuns. Por um lado, certas habilidades, como as demonstradas pelos médiuns durante seus períodos de transe, como a facilidade de Hélène para a pintura, a dança e a “língua marciana”, seriam o “produto da imaginação da mente subconsciente dos médiuns ao elaborarem lembranças e inquietações latentes” (Flournoy, 1899, p. 144). Não é difícil verificar que a obra teórica de Flournoy se aproxima das concepções psicodinâmicas como as produzidas por Freud e Jung, não sendo raro encontrar referências a eles em seus escritos. Mas se, por um lado, Flournoy aceitava a existência de um processo não-consciente de elaboração criativa de personalidades e dados a ela relacionados, por outro admitia a possibilidade de que os médiuns teriam a capacidade de obter informações para além do uso dos sentidos, ainda que essas fossem apresentadas por essas pessoas como se espíritos dos mortos estivessem em sua origem. Para Flournoy, portanto, somam-se às habilidades criativas subconscientes as capacidades propriamente parapsicológicas como instrumentos necessários e suficientes para que seja possível a personificação de uma pessoa falecida, inclusive com a apresentação de informações aparentemente apenas conhecidas pelo morto enquanto vivo e por aqueles que privavam de sua vida mais íntima. Assim, o tema da personificação tornou-se ainda mais complexo quando se sustentou que a telepatia e outros fenômenos poderiam estar envolvidos nas produções dissociativas da mediunidade. 17 Sobre a vida e obra de Flournoy, Claparéde (1923). Caratelli (1996, capítulo 3) e Shamdasani (1994) discutem sua obra em pesquisa psíquica com ênfase na mediunidade. |
| Mediunidade e psicopatologia |
Em 1910, um psiquiatra francês escreveu que “os salões espíritas são a ante-sala do asilo” 20 O próprio Charcot (1888) já havia ligado a mediunidade à histeria. Ele relatou o caso de uma menina de 13 anos e meio de idade, chamada Julie, que havia sofrido dos nervos desde a infância. Ela começou a se desenvolver como médium após ter participado de sessões de mesas girantes com sua família. Julie passou a escrever mensagens dos espíritos. Em uma sessão, ela havia terminado de escrever uma mensagem quando foi tomada por uma espécie de convulsão: “Então, Julie, com uma risada estridente, volta-se imediatamente e, como uma louca... corre para dentro e para fora de sua casa, manifestando gritos inarticulados, então rola e rola pelo chão, apresentando uma série de paroxismos histéricos caracterizados principalmente pelas contorções...” (p. 67). A menina teve de ser hospitalizada. Charcot considerava que esses casos ocorriam quando as pessoas com predisposições nervosas se envolviam com sessões mediúnicas e outras práticas congêneres. Lévy-Valensi (1910) não considerava a mediunidade necessariamente patológica, mas afirmava que os médiuns poderiam ter predisposição que os permitia facilmente cruzar a fronteira da insanidade, produzindo o que ele chamou de delírio espírita. O delírio, ele pensava, expressava-se após longo período de prática da mediunidade. Consistia de alucinações de diferentes tipos, sensações eróticas e problemas com as funções genitais, comportamentos de luta com perseguições alucinatórias e facilidade de espalhar a ilusão a outras pessoas. Ele apresentou uma lista de 17 médiuns dos quais seis se tornaram insanos em virtude da prática da mediunidade. As discussões desses temas continuaram até tempos recentes (Ehrenwald, 1948; Encausse, 1943, entre outros). Por exemplo, em seu livro Telepathy and Medical Psychology, o psiquiatra Jan Ehrenwald (1900-1988) escreveu sobre a mediunidade de Eileen Garrett (1893-1970). Ehrenwald referia-se ao temperamento parapsicológico como tendo algumas similaridades com a histeria e a esquizofrenia, mas não que tivessem o mesmo significado. O temperamento mediúnico representa um tipo em si mesmo, mas que pode colocar a pessoa “à beira da desordem mental” (p. 181). 23 Sobre idéias da patologia mediúnica no Brasil, ver Moreira-Almeida et al., (2005), Giumbelli (1997) e Zangari (2003, 2005). Existe, ainda, uma crença difundida de que aqueles que acreditam e mantêm algum interesse no espiritualismo, em geral, e nas práticas mediúnicas, em particular, estão sujeitos às doenças mentais de diferentes modalidades (Beard, 1879; Burlet, 1863; Hammond, 1876). Ver o caso de Charcot (1888) mencionado anteriormente, de uma médium de 13 anos e meio de idade cujos irmãos, por contágio mental, desenvolveram histeria compulsiva. Viollet (1910) argumentou que aquelas pessoas que são atraídas às sessões espíritas apresentam “predisposições nervosas hereditárias(...) em seus cérebros(...) [que podem] levá-las ao caminho da psicose degenerativa(...)” (p. 7). Essas pessoas, algumas vezes, apresentam sonambulismo espontâneo. “Elas se tornam sujeitos nas mãos dos médiuns(...) ou revelam-se, espontaneamente, médiuns de mesas girantes ou de fala” (p. 11). Field (1888) aceitava a idéia de que a excitação gerada pelas sessões mediúnicas poderia causar insanidade. Ele afirmava, no entanto, que muitas das ilusões atribuídas ao espiritismo poderiam ter uma causa mais geral em alguns casos, tais como a masturbação (p. 493). Em uma discussão posterior, O’Donnell (1920) sustentou que ninguém que atendesse às sessões mediúnicas habitualmente poderia escapar dos seus efeitos patológicos, “e se eles não aparecem tornando-os completamente dementes, eles certamente degeneram e os tornam distantes do normal” (p. 107). Houve casos, além disso, de pessoas que foram declaradas insanas apenas por terem crenças espíritas (Haber, 1986; Owen, 1990, pp. 154-167). Em complemento à variedade de modelos causais apresentados na associação mediunidade-patologia, há pelo menos dois exemplos de literatura específica que foram discutidos de várias formas. Brevemente, esses dois grupos afirmavam a natureza paranormal da mediundidade, mas enquanto alguns aceitavam a patologia (Lombroso, 1892), outros a repeliam (Delanne, 1902). Para uma discussão dessa última posição no Brasil, veja o repúdio do advogado e escritor Carlos Imbassahy (1884-1969) às alegações da conexão entre práticas espíritas e insanidade (1949). |
| Conclusões |
Fenômenos como a escrita automática, o aparecimento de personalidades de espíritos e das mesas girantes estavam entre as manifestações que influenciaram a psicologia e a psiquiatria. As ações dos médiuns, tais quais interpretadas pelos clínicos e pelos pesquisadores, permitiram o desenvolvimento de grande variedade de conceitos. Neste trabalho enfatizamos os conceitos de mente subconsciente, dissociação e psicopatologia. Trabalhos de grande repercussão, como os produzidos por Ballet, Carpenter, Flournoy, Janet e Myers, entre outros, apoiaram alguns desses conceitos e, em contrapartida, da mesma forma influenciaram muitos outros. É importante, no entanto, tomar tal influência em seu contexto. A entrada da mediunidade nesse processo foi apenas um de vários outros fatores, dentre os quais podemos incluir a histeria e a hipnose. Mas mesmo sendo um entre outros fatores, é importante reconhecer sua existência, o que infelizmente foi negligenciado no passado. Tal consideração da mediunidade nesse panorama vai além de fornecer uma nova forma de explorar o subconsciente. Como sustentou Ellenberger: “Um novo sujeito, o médium, tornou-se disponível para as investigações psicológicas experimentais que envolveram um novo modelo de mente humana” (1970, p. 85). O estudo da mediunidade não se limitou a mero instrumento para desenvolver o conceito de subconsciente. Os médiuns, na esteira de outros indivíduos – como os sonâmbulos magnéticos e aqueles dos casos de múltiplas personalidades que surgiram fora do contexto da hipnose –, tornaram-se parte de um pequeno grupo de indivíduos especiais que levaram estudiosos da mente a vislumbrar regiões invisíveis da psique. Isso, como discutimos, teve implicações para a dissociação e as considerações diagnósticas. |
| Referências |
NAksakof, A. - Animismo y espiritismo: ensayo de un exámen crítico de los fenómenos medianímicos. Carbonell y Esteva, Barcelona, 1906. |
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Órgão Oficial do Departamento
e Instituto de Psiquiatria
Faculdade de Medicina - Universidade
de São Paulo