Desde tempos imemoriais, crenças, práticas e experiências espirituais têm sido um dos componentes mais prevalentes
e influentes da maioria das sociedades. Profissionais de saúde, pesquisadores e a população em geral têm,
cada vez mais, reconhecido a importância da dimensão religiosa/espiritual para a saúde. O número de estudos que
investigam a relação entre espiritualidade e saúde tem crescido exponencialmente. Contudo, existem duas importantes
limitações nesse campo em relação ao Brasil e outros países de língua portuguesa. Uma delas é que os estudos
sobre espiritualidade e saúde realizados nesses países não são bem conhecidos no exterior. A segunda limitação é a
ausência de uma revisão abrangente da literatura sobre espiritualidade e saúde, em português, que seja facilmente
acessível a pesquisadores e clínicos de tais países.
Até onde sei, esta é a primeira revista médica em português a destinar um fascículo inteiro à espiritualidade e
saúde. Espero que este suplemento especial ajude a sanar as duas limitações anteriormente citadas. A Revista de
Psiquiatria Clínica é um periódico com revisão de pareceristas fundada em 1972 e publicada bimestralmente pelo
Departamento de Psiquiatria da Universidade de São Paulo, no Brasil. Possui livre acesso on-line no site www.hcnet.usp.br/ipq/revista, o que torna os artigos publicados facilmente acessíveis no mundo todo. Tendo em vista a maior
disseminação dos materiais aqui publicados, boa parte dos artigos, deste suplemento, está disponível também em
inglês e pode ser baixada gratuitamente no site da Revista de Psiquiatria Clínica.
Busquei tornar este suplemento em espiritualidade e saúde tão abrangente e interdisciplinar quanto possível.
Além de proporcionar uma panorâmica sobre as principais linhas de pesquisa atualmente desenvolvidas nesse campo,
foram incluídos vários artigos sobre temas relevantes, mas ainda pouco estudados em espiritualidade e saúde.
Tópicos que pesquisadores brasileiros potencialmente podem dar uma contribuição única e especial receberam maior ênfase. Alguns desses temas são os estados de transe e possessão, bem como intervenções clínicas com base em
espiritualidade. Para cumprir essas metas, estou honrado em contar com artigos de vários dos principais líderes de
pesquisa em espiritualidade e saúde do Brasil, Estados Unidos e Reino Unido. Gostaria de expressar minha gratidão
a todos os autores e pareceristas que colaboraram para este suplemento e aos tradutores que fizeram a versão em
português de manuscritos redigidos originalmente em inglês. Especialmente, desejo agradecer ao Professor Wagner
Gattaz, editor da Revista de Psiquiatria Clínica. Senti-me profundamente honrado e desafiado com o convite para ser
o editor deste suplemento especial em espiritualidade e saúde.
Harold Koenig, provavelmente o mais importante pesquisador em religião em saúde da atualidade, abre este suplemento
com um prefácio enfatizando a relevância do campo e as contribuições atuais e em potencial dos pesquisadores
brasileiros. Os primeiros artigos abordam aspectos epistemológicos, metodológicos e históricos de investigações
relacionadas a experiências espirituais, especialmente experiências conectadas aos fundamentos universais da espiritualidade:
xamanismo e estados alterados da consciência. Gostaria também de destacar o artigo sobre investigações em
xamanismo, escrito por Stanley Krippner, psicólogo e pesquisador com centenas de artigos publicados a respeito de
estados alterados de consciência. O principal objetivo desses artigos introdutórios é proporcionar algum fundamento
e diretrizes para pesquisas futuras nesses temas tão controversos quanto desafiadores.
Após esses artigos teóricos, há cinco artigos
apresentando evidências atuais sobre a relação
de religião/espiritualidade com questões clínicas,
como uso de drogas, dor, cuidados paliativos, saúde física,
psicose e qualidade de vida. Esses trabalhos são seguidos
por um artigo de Bruce Greyson, o mais destacado pesquisador norte-americano
em experiência de quase-morte. O seu texto aborda as experiências
de quase morte, suas implicações clínicas e
teóricas para a relação mente-corpo e o estudo
da consciência.
Outros quatro artigos lidam com um aspecto muito importante, mas
pouco explorado da espiritualidade e da saúde: intervenções
clínicas espiritualmente fundamentadas. Esse é um
tipo de pesquisa que envolve várias questões éticas
metodológicas críticas. Leão e Lotufo Neto
e Elias et al. apresentam os resultados de ensaios clínicos
muito inovadores e criativos por eles conduzidos. Os desenhos desses
estudos são muito promissores e merecem posterior aprimoramento.
Após
um interessante artigo sobre as controvérsias em relação
à definição e à medida de espiritualidade,
este suplemento especial termina com uma autobiografia de Ian Stevenson,
um dos pesquisadores mais importantes e respeitados na pesquisa
de vários tipos de experiência espiritual. Após
ter em mãos o seu manuscrito, foi com grande pesar que recebi
a notícia de seu falecimento, em fevereiro deste ano. Espero
que a publicação da sua autobiografia, neste suplemento,
possa ser um pequeno tributo à sua vida devotada à
exploração dos temas mais controversos usando as abordagens
científicas mais rigorosas.
Estudar
cientificamente a espiritualidade é uma empreitada muito
entusiasmante e perigosa.
Essa é uma área repleta de preconceitos, preconceitos
a favor e contra a espiritualidade. A maioria das pessoas tem opiniões
sobre o tema, mas habitualmente essas opiniões foram formadas
sem uma análise aprofundada das evidências disponíveis.
É fácil deslizar, por um lado, para um ceticismo intolerante
e uma negação dogmática ou, por outro, para
uma aceitação ingênua de afirmações
pouco undamentadas. Não importa se possuímos crenças
materialistas ou espirituais, atitudes religiosas ou anti-religiosas,
necessitamos explorar a relação entre espiritualidade
e saúde para aprimorar nosso conhecimento sobre o ser humano
e nossas abordagens terapêuticas. Ao longo dessa empreitada
desafiadora, seria
útil lembrar as palavras de Karl Popper, um dos filósofos
mais importantes do século XX:
“Na busca da verdade, a melhor estratégia pode ser começar criticando as crenças que nos sejam mais caras (...) (p. 6).
Eu acredito que valeria a pena tentar aprender algo sobre o mundo, mesmo se nessa tentativa aprendermos apenas
que não sabemos muito. Esse estado de ignorância aprendida pode ser útil em muitos de nossos problemas. Pode servir
para que todos nos lembremos que, mesmo diferindo amplamente nas várias pequenas coisas que sabemos, em nossa
infinita ignorância, somos todos iguais” (p. 29).*
*
Popper, K.R. Conjectures and refutations – The growth of scientific
knowledge. London, Routledge, 1995.
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