![]() |
![]() |
![]() |
Os primeiros curadores da humanidade: abordagens
psicológicas
e psiquiátricas sobre os xamãs e o xamanismo
Humanity’s first healers: psychological and psychiatric stances on shamans and shamanism
Stanley Krippner Endereço para correspondência: Stanley Krippner, Saybrook Graduate School and Research Center, 747 Front st., 3rd floor, Tradução: Letícia Alminhana |
| Resumo |
Contexto: o autor descreve os xamãs como curadores que deliberadamente modificam seu padrão fenomenológico de atenção, percepção, cognição e consciência para obter informações não disponíveis ordinariamente aos membros do grupo social que lhes concedeu status privilegiado. Objetivos: descrever como estas alterações fenomenológicas foram alcançadas e utilizadas. Métodos: foram utilizados estudos da literatura xamânica em arquivo e pesquisas de campo em comunidades onde xamãs estão atuando ativamente. Resultados: a fonte das informações obtidas pelos xamãs é atribuída a forças e entidades desencarnadas, como espíritos, ancestrais, guias animais e campos energéticos. Essas fontes foram contatadas através de toques ritualizados de tambores, danças, sonhos lúcidos, uso de plantas psicotrópicas, atenção focalizada e outros recursos. Este estudo foi importante, pois mostrou que os xamãs utilizam as informações obtidas para atender às necessidades sociais, psicológicas e médicas de suas comunidades. Conclusões: o disseminado aparecimento dos xamãs, especialmente em tribos caçadoras e coletoras, indica que suas presenças possuem funções adaptativas em um grupo social. Além disso, estes dados podem trazer importantes contribuições para a neurociência cognitiva, psicologia social, psicoterapia e psicologia ecológica. |
| Abstract |
Background: the author describes shamans as practitioners who deliberately shift their phenomenological pattern of attention, perception, cognition, and awareness in order to obtain information not ordinarily available to members of the social group that granted them privileged status. Objectives: to describe how these phenomenological shifts were accomplished and used. Methods: archival studies of shamanic literature as well as field research in communities where shamans are actively functioning. Results: the source of shaman-derived information is attributed to such discarnate entities and forces as spirits, ancestors, animal guides, and energetic fields. These agencies were contacted through ritualized drumming, dancing, lucid dreaming, the use of psychotropic plants, focused attention, and other technologies. This study was important because it determined that shamans utilize the obtained information to attend to their community’s social, psychological, and medical needs. Conclusions: the ubiquitous appearance of shamans, especially in hunting and gathering tribes, indicates that their presence in a social group served adaptive functions. Further, these data can make important contributions to cognitive neuroscience, social psychology, psychotherapy, and ecological psychology. |
| Introdução |
O termo “xamã” é um construto social que descreve uma pessoa que atende às necessidades psicológicas e espirituais de uma comunidade. As técnicas que capacitam xamãs de ambos os sexos a terem acesso a informações não ordinariamente acessíveis são conhecidas como “xamanismo” (Krippner, 2000). Desenvolvimentos recentes em pesquisa qualitativa, assim como o uso inovador dos métodos investigativos convencionais, têm fornecido as ferramentas necessárias para trazer rigor e criatividade na investigação dos xamãs, de seus comportamentos e experiências. Roger Walsh analisou a fenomenologia xamânica, concluindo que ela é distinta dos estados esquizofrênicos, budistas e iogues, em dimensões tão importantes quanto como a consciência do meio ambiente, a concentração, o controle, o senso de identidade, o estado de alerta, o afeto e as imagens mentais (Walsh, 2001). Os xamãs foram os primeiros psicoterapeutas, primeiros médicos, primeiros mágicos, primeiros artistas performáticos, primeiros contadores de histórias e até mesmo os primeiros previsores do tempo da humanidade (Ryan, 1999). Eles têm sido ativos, por um longo tempo, em tribos caçadoras-coletoras e pescadoras, mas também são encontrados em sociedades nômades-pastoris, agrícolas e urbanas. |
| Papéis xamânicos |
Qualquer sociedade pode ter um ou mais tipos de praticantes xamânicos. O papel das mulheres, tão comumente negligenciado, como xamãs no mundo todo, tem sido abordado em profundidade por Bárbara Tedlock (Tedlock, 2005). Entre os Kung do sudoeste da África, a maioria dos homens e uma minoria considerável de mulheres são praticantes mágico-religiosas (Katz, 1981). Um recente estudo transcultural do xamanismo focou praticantes mágico-religiosos, indivíduos que ocupam uma função socialmente reconhecida, a qual tem como base a interação com dimensões de existência não-ordinárias, não-consensuais. Essa interação envolve o conhecimento especial de entidades espirituais e como se relacionar com elas, assim como poderes especiais que permitem, a estes praticantes, influenciar o curso da natureza ou questões humanas de modos não ordinariamente possíveis. O antropólogo Michael Winkelman codificou cada tipo de praticante separadamente em características, tais como os tipos de atividades mágicas ou religiosas desempenhadas, as técnicas empregadas, os procedimentos usados para alterar a consciência, as visões mitológicas de mundo dos praticantes e suas características psicológicas, o poder recebido, o status socioeconômico e o papel político. Suas análises estatísticas forneceram uma divisão em quatro grupos: (1) “complexo xamã”, consistindo de xamãs, xamãs-curadores e curadores; (2) sacerdotes e sacerdotisas; (3) adivinhos, videntes e médiuns; (4) praticantes malévolos, incluindo bruxas e feiticeiros (Winkelman, 1992). |
| Seleção e treinamento de xamãs |
Xamãs são iniciados em sua profissão de vários modos: alguns herdam o papel enquanto outros podem exibir sinais corporais, tais como um dedo extranumerário, albinismo ou uma marca de nascimento incomum; ações incomuns, como convulsões ou outros padrões de comportamento culturalmente associados com o sexo oposto ou experiências estranhas, como sensações de estar “fora do corpo” e sonhos vívidos e lúcidos. Dependendo da cultura, quaisquer dessas experiências podem constituir um chamado ao xamanismo (Krippner e Villoldo, 1986). Além disso, os futuros xamãs podem sobreviver a uma doença quase fatal e interpretar esse fenômeno como um chamado. Os espíritos podem avisá-los em seus sonhos ou em devaneios diurnos (Heinze, 1991). Esses “chamados” podem vir em qualquer idade, dependendo da tradição da sociedade; em alguns casos tais chamados ocorrem tarde na vida, oferecendo oportunidades aos indivíduos que possuem méritos para continuar seu serviço à comunidade utilizando suas experiências de vida. Por outro lado, comportamentos estranhos podem ser interpretados pela comunidade como um chamado, canalizando, desse modo, ações potencialmente perturbadoras em comportamentos padrões que são percebidos como benéficos. |
| Estados alterados de consciência |
Os primeiros exploradores e etnógrafos russos sugeriram que os primeiros xamãs eram simples curadores da natureza. Porém, durante a última fase feudal da evolução social, eles teriam inventado os espíritos e, com isso, necessitaram desenvolver os estados alterados de consciência (EAC) a fim de contatar e se comunicar com esses espíritos (Hoppál, 1984). Mais recentemente, Érika Bourguignon pesquisou 488 sociedades e descobriu que 89% delas tinham um ou mais EACs culturalmente adaptados. Ela concluiu que a capacidade de experienciar EACs era uma capacidade psicobiológica básica de todos os seres humanos (Bourguignon, 1974). Recentemente tem sido sugerido que a “consciência ampliada” pode ser, na realidade, uma descrição mais acurada do que um “estado alterado” porque as intensas experiências xamânicas do mundo natural são descritas com frases como “muitas vezes as coisas parecem resplandecer” (Berman, 2000). A maioria dos estudiosos, contudo, ainda favorece a idéia de que EACs são básicos para o xamanismo, especialmente a “incorporação espiritual” e a “viagem astral”. Essa conclusão foi recentemente reforçada pelo arqueólogo britânico Stephen Mithen, que sugeriu que a fluidez cognitiva que criou a explosão cultural das eras Paleolítica Média e Superior também trouxe o desenvolvimento de EACs (Mithen, 1996). Winkelman concorda, sugerindo que os dados psiconeurológicos indicam que as tradições xamânicas institucionalizaram procedimentos para superar a fragmentação natural da consciência ao sincronizar a cognição humana pela indução de processos cerebrais integrativos (Winkelman, 2000a). |
| Curas xamânicas |
As funções curadoras dos xamãs são o foco primário de seu repertório. Mente e corpo são vistos como uma unidade e por isso não há divisão rígida entre doenças físicas ou mentais. Dor e outros sintomas são vistos como fontes de informação que podem ser utilizadas no diagnóstico, da mesma forma que os sonhos do cliente, sua aura, campos de energia e eventos incomuns da vida. A manipulação simbólica desempenha um papel fundamental, junto com o tambor que serve de veículo com o qual o xamã se dirige ao mundo dos espíritos. O soprar de fumaça nas quatro direções representa um apelo aos guardiões dos quatro cantos do universo. Para o xamã e suas comunidades, já que qualquer produto da imaginação humana representa uma forma de realidade, a imagem mental e a imaginação desempenham papel importante na cura (Achtenberg, 1985). Procedimentos específicos de cura variam amplamente, mas freqüentemente incluem dietas, exercício, ervas, relaxamento, imaginação mental, orações, purificações e rituais diversos (Krippner e Villoldo, 1986). Os tratamentos dependem dos diagnósticos e das tradições culturais. Se um membro da comunidade parece estar sofrendo de “perda da alma”, um xamã vai procurar pela alma do cliente, restituindo-a antes que a pessoa sucumba a uma condição terminal. O diagnóstico determina se a alma foi roubada ou extraviada do corpo. O tratamento é dirigido para a recuperação da alma por intermédio do “apanha-almas” (soul-catching) ou de um procedimento semelhante. |
| Neurociência cognitiva |
Os psicólogos têm proposto que a atenção, a memória e a consciência são os três maiores componentes do construto consciencial. Como a atenção envolve, ao mesmo tempo, os processos neurais e as operações mentais, as práticas xamânicas proporcionam aos neurocientistas cognitivos uma oportunidade excepcional de estudar os fundamentos neurológicos de uma tecnologia que mantém a consciência, amplia a percepção e facilita a lembrança, enquanto a atenção do adepto se move entre os focos interno e externo (Farthing, 1992). |
| Psicologia social |
O estudo das atitudes e comportamentos individuais em locais onde outras pessoas estejam presentes (ou sejam imaginadas) é chamado de psicologia social. Esse campo examina indivíduos inseridos no contexto das estruturas sociais. A visão xamânica de mundo tradicional define os indivíduos em termos de seus clãs e sistemas de parentesco e oferece um esquema que é bem apropriado para o estudo dos psicólogos sociais. O ser humano é um animal incrivelmente social. Ao contrário de outros animais, os humanos não são nem fortes, nem rápidos. Sua sobrevivência, assim, depende de uma abstrata solução de problemas e da formação de grupos. Há, provavelmente, uma base genética para a formação grupal, já que ela tem sido altamente adaptativa na evolução humana; mesmo assim, o mundo social modula a expressão do gene. O xamanismo é uma adaptação cultural a potenciais adaptativos de base biológica, especialmente aqueles que fomentam hipnotizabilidade que coincide com as experiências anômalas e espirituais. Com base nessas experiências, os xamãs desenvolveram rituais que promovem coesão intragrupal, fertilidade e resultados terapêuticos (McClenon, 1997). |
| Terapias psicológicas e psiquiátricas |
As terapias psicológicas e psiquiátricas são tentativas deliberadas de modificar atitudes, comportamentos e experiências que clientes e seus grupos sociais julgam serem disfuncionais, que inibem os relacionamentos interpessoais, causam prejuízos funcionais ou bloqueiam a concretização dos talentos e das capacidades dos clientes. Práticas de cura xamânicas tentam modificar atitudes, comportamentos e experiências disfuncionais por intermédio de uma série estruturada de contatos entre um praticante sancionado socialmente e clientes em sofrimento, mas que reconhecem o status do praticante. Relacionamentos falidos, atuações imperfeitas e desenvolvimentos pessoais defeituosos são problemas comuns à condição humana. Quando indivíduos em sofrimento decidem que nem seus próprios recursos nem o de seus familiares e amigos são suficientes para aliviar suas aflições, geralmente eles buscam a assistência dos praticantes culturalmente aceitos, tais como xamãs. Contudo, o que é considerado disfuncional em uma cultura – por exemplo, ver fantasmas, ouvir vozes quando ninguém está presente, envolver-se em comportamento competitivo – pode não ser considerado problemático em uma outra cultura. Problemas que são disseminados em uma parte do mundo – como possessão demoníaca, sofrer de mal-olhado e anorexia nervosa – podem ser virtualmente desconhecidos em outros locais. Mitos culturais que uma sociedade classifica como válidos – adoecimentos como resultado de quebra de tabus, espíritos malévolos como o fator principal na causa de acidentes, práticas imperfeitas na criação dos filhos como um dado que contribui para o desenvolvimento de problemas emocionais – podem ser considerados pensamento mágico ou superstição em uma outra. |
| Psicologia ecológica |
A ecopsicologia ou psicologia ecológica busca compreender os processos comportamentais e experienciais quando estes ocorrem dentro dos limites de sistemas ambientais animais – os sistemas do meio ambiente. Ela tem foco na percepção, ação, cognição, aprendizagem, desenvolvimento e evolução em todas as espécies. Ecopsicólogos se posicionam de forma a ver o ser humano como uma parte integral de um sistema maior e que a saúde deste sistema requer relacionamentos sustentáveis e mutuamente apoiadores, não apenas entre suas partes, mas também entre as partes e o todo. O funcionamento saudável precisa incluir a consciência de sua interconectividade e interdependência, uma compreensão que tem sido uma parte essencial das tradições xamânicas por, pelo menos, 30 mil anos. Existem muitas variantes desse campo, mas todas elas criticam o que eles vêem como a tendência da ênfase psicológica na separação do indivíduo de outras pessoas e do meio ambiente natural. Para ser saudável psicologicamente, a pessoa deve reconhecer que o planeta está em perigo e fazer esforços autênticos para salvá-lo. Escrevendo com base em uma perspectiva ecopsicológica, Ralph Metzner propôs que “curar o planeta” é basicamente uma jornada xamânica; sendo assim, o estudo psicológico do xamanismo pode exercer uma função vital nessa empreitada (Metzner, 1999). Talvez o protótipo do xamã poderia servir como o “modelo de pessoa responsável” a exibir o “comportamento ambientalmente responsável” (Kaplan, 2000). |
| Conclusão |
Os pesquisadores concluíram que, mesmo após 500 anos de relatos sobre xamanismo, sua essência permanece um mistério. “Uma coisa que tem mudado (...), contudo, é o olhar atento dos observadores. Ele tem se aberto. E o entendimento está começando a florescer” (Narby e Huxley, 2001). Enquanto o neoxamanismo está se tornando ainda mais popular no Ocidente, o xamanismo tradicional indígena está cada vez mais ameaçado. É crucial aprender o que o xamanismo tem a oferecer para as ciências sociais e comportamentais antes que os arquivos de pesquisa em bibliotecas substituam a pesquisa de campo como o melhor método disponível para investigar esses psicólogos prototípicos. |
| Agradecimentos |
Ao Saybrook Graduate School Chair for the Study of Consciousness, São Francisco, Califórnia, EUA, que apoiou a preparação deste artigo. |
| Referências |
American Psychiatric Association - Diagnostic and statistical manual of mental disorders. Fourth edition. Washington, DC: Author, 1994. |
| |
Órgão Oficial do Departamento
e Instituto de Psiquiatria
Faculdade de Medicina - Universidade
de São Paulo