| Características
botânicas e químicas das plantas utilizadas na preparação
do chá
O cipó Banisteriopsis caapi é da família Malpighiaceae,
nativa da Amazônia e dos Andes. Possui em sua composição
alcalóides ß-carbolinas inibidoras da MAO, sendo que
os de maior concentração são: harmina, harmalina,
tetra-hidro-harmalina. A concentração desses alcalóides
varia de 0,05% a 1,95% (McKenna et al., 1998).
A Psycotria viridis, planta da família Rubiaceae, possui
em sua composição o alcalóide derivado indólico
N, N-dimetiltriptamina (DMT) em concentração de 0,1%
a 0,66% que age sobre os receptores da serotonina (McKenna et al.,
1998).
Baseado em análises quantitativas do chá, 200 mL de
Ayahuasca possui 30 mg de harmina, 10 mg de tetra-hidro-harmalina
e 25 mg de DMT (McKenna et al., 1998). Em camundongos, 5 mg/kg de
harmalina causa cem por cento de inibição motora por
duas horas (McKenna et al., 1998). Essa dose seria em adultos o
equivalente a 375 mg em 75 kg, porém, é provável
que metade dessa dose também tenha efeito (McKenna et al.,
1998). Como são inibidoras da monoaminoxidase (MAO), as ß-carbolinas
podem aumentar os níveis de serotonina no cérebro
e os efeitos primários de altas doses dessas substâncias
é a sedação provocada pelo bloqueio da desaminação
da serotonina (McKenna et al., 1998). No chá da Ayahuasca,
as ß-carbolinas inibem a MAO, protegendo o DMT da degradação
pela mesma, (McKenna et al., 1998).
Mecanismo de ação do DMT e das ß-carbolinas
O RECEPTOR DA 5-HIDROXITRIPTAMINA – SEROTONINA
Antes que se possa entender o mecanismo de ação dos
alcalóides encontrados no chá da Ayahuasca, faz-se
necessário o entendimento do mecanismo endógeno. A
serotonina 5-hidroxitriptamina (5-HT) se distribui amplamente nos
tecidos animais (Katzung, 1998). Na glândula pineal, atua
como precursora da melatonina, um hormônio estimulador dos
melanócitos (Katzung, 1998). Mais de 90% da serotonina do
organismo são encontradas nas células enterocromafins
do trato gastrintestinal (TGI) (Katzung, 1998).
No sangue, a serotonina é encontrada nas plaquetas, que são
capazes de concentrar a amina por meio de um mecanismo transportador
ativo (Katzung, 1998). É encontrada também, nos núcleos
da rafe do tronco cerebral, que contém corpos celulares de
neurônios triptaminérgicos (serotoninérgicos)
que sintetizam, armazenam e liberam a serotonina como seu transmissor
(Katzung, 1998).
Os neurônios serotoninérgicos cerebrais estão
envolvidos em diversas funções como sono, humor, regulação
da temperatura, percepção da dor e regulação
da pressão arterial (Katzung, 1998). Pode estar envolvida
ainda, com condições patológicas, tais como
depressão, ansiedade e enxaqueca. Neurônios serotoninérgicos
são encontrados, também no sistema nervoso entérico
do TGI e em torno dos vasos sangüíneos (Katzung, 1998).
A serotonina é metabolizada pela MAO em 5-hidroxin-dolacetaldeído
(Katzung, 1998).
A serotonina exerce muitas ações mediadas por receptores
na membrana celular. O receptor 5-HT1a tem distribuição
pelos núcleos da rafe e hipocampo, diminuindo o AMP cíclico
e levando à hiperpolarização da membrana causada
pelo aumento da condutância de K+. O receptor 5-HT1b aparece
no globo pálido e gânglios da base e sua estimulação
leva à diminuição do AMPc. O receptor 5-HT1c
ocorre no coróide e hipocampo gerando também, aumento
do IP3 nesses locais (Katzung, 1998).
O 5-HT2 distribui-se pelas plaquetas, músculo liso, córtex
cerebral e fundo do estômago, causando aumento do IP3 (Katzung,
1998). Esse aumento de IP3 significa, ao final do mecanismo, aumento
da secreção e da motilidade desses órgãos
e tecidos.
Os principais efeitos da serotonina no sistema cardiovascular são:
contração do músculo liso e vaso constrição
potente (exceto em músculos esqueléticos e no coração);
no coração causa vasodilatação e agregação
plaquetária ocasionada pela ativação do 5-HT2
de superfície (Katzung, 1998). No TGI, causa contração
da musculatura lisa, aumentando tônus e facilitando o peristaltismo.
A produção excessiva de serotonina em tumores associa-se
à diarréia intensa (Katzung, 1998).
Sobre a respiração, a serotonina tem pequena ação
estimulante do músculo liso bronquiolar (Katzung, 1998).
No sistema nervoso, essa substância é estimuladora
potente das terminações nervosas sensoriais para dor
e prurido, além disso, é ativadora potente das terminações
quimio-sensíveis localizadas no leito vascular coronário,
associada à bradicardia e hipotensão (Katzung, 1998).
A DIMETILTRIPTAMINA
O dimetiltriptamina (DMT) é um potente alucinógeno
quando usado por via parenteral na dosagem de 25 mg (McKenna et
al., 1998). Sua ação é agonista dos receptores
5-HT1a, 1b, 1d e do 5-HT2a e 2c. Porém, por via oral, ele
é inativado através da desaminação sofrida
pela ação da enzima MAO intestinal e hepática.
Os efeitos aparecem de 30 a 45 minutos, aproximadamente, e podem
durar até quatro horas (Mckenna et al., 1998).
AS ß-CARBOLINAS
As ß-carbolinas têm propriedades alucinógenas
(Caze-nave, 1996) e, portanto, contribuem para a atividade da bebida
Ayahuasca. Como são inibidoras da MAO, as ß-carbolinas
inibem a desaminação intestinal do DMT possibilitando
a chegada deste ao cérebro, mesmo por via oral (Callaway
et al. 1999). Além disso, elas ainda aumentam os níveis
de serotonina, dopamina, norepinefrina e epinefina no cérebro.
Os efeitos sedativos primários de altas doses de ß-carbolinas
são resultantes do bloqueio da desaminação
da serotonina (Cazenave, 1996). A tetra-hidro-harmina (THH) é
a segunda ß-carbolina mais abundante no chá e atua
como um fraco inibidor da recaptação do receptor 5-HT
e inibidor da MAO, portanto, o THH pode prolongar a meia vida do
DMT por bloquear a sua recaptação intraneuronal (McKenna
et al., 1998). Por outro lado, a THH pode bloquear a recaptação
neuronal da serotonina, resultando em altos níveis de 5-HT
na fenda sináptica e pode atenuar os efeitos da ingestão
oral do DMT por competir com os sítios receptores pós-sinápticos
(McKenna et al., 1998).
A ação da bebida se deve, portanto, à interação
das ß-carbolinas com o DMT presentes nas plantas, que juntas
potencializam as propriedades alucinógenas de ambas isoladas,
levando-se em consideração que as ß-cartolinas
aumentem as concentrações de DMT.
Os principais efeitos da Ayahuasca
Os efeitos subjetivos são visão de imagens com os
olhos fechados, delírios parecidos com sonhos e sensação
de vigilância e estimulação. É comum
ocorrer hipertensão, palpitação, taquicardia,
tremores, midríase, euforia e excitação agressiva
(Cazenave, 2000). Náuseas, vômitos e diarréia
são comuns e podem estar associadas à ação
no receptor 5-HT2.
Certas ß-carbolinas foram identificadas como causadoras de
efeitos comutagênicos2 e o mecanismo parece estar
associado à interação destas substâncias
com os ácidos nucléicos (McKenna et al., 1998). Essas
substâncias, por serem inibidoras da MAO, podem causar a denominada
síndrome serotoninérgica (Katzung, 1998), que é
uma das patologias mais graves ocasionadas pelo excesso de serotonina
(McKenna et al., 1998).
2 O termo co-mutagênico significa que a substância
poderá ativar algum mecanismo mutagênico. A harmina,
por ela mesma, não possui atividade mutagênica, portanto,
foi chamada de co-mutagênica (Umezawa et al., 1978).
A ação alucinógena conhecida como “miração”
é uma manifestação específica e freqüente,
caracterizada por visões de animais, “seres da floresta”,
divindades, demônios, sensação de voar, substituição
do corpo pelo de outro ser (homem ou animal), dentre muitas outras,
de acordo com a experiência individual (Cazenave, 2000). A
Ayahuasca pode promover ilusões visuais, auditivas, olfativas
e dos demais sentidos (Labigaline, 1998). Os chamados “estados
alterados de consciência” provocados pelo chá
podem ser considerados como alterações da percepção,
cognição, volição e afetividade (Labigaline,
1998).
A avaliação de intensidade de efeitos da Ayahuasca
foi realizada através da aplicação da Escala
de Mensuração dos alucinógenos (Hallucinogen
Rating Scale [HRS]), uma hora depois de cessados os efeitos da ingestão
de cerca de 150 mL do chá (Labigaline, 1998). Foram encontrados
resultados semelhantes a uma dose intravenosa de 0,1 a 0,2 mg/kg
de DMT nos espectros de intensidade, afeto, cognição
e volição (Labigaline, 1998). No agrupamento de percepção,
foi comparável com 0,1 mg/kg de DMT e no agrupamento de sinestesia
foi inferior à menor dose de DMT intravenosa utilizada (0,05
mg/kg) (Labigaline, 1998).
A maioria dos alucinógenos que atuam sobre o receptor 5-HT
leva ao fenômeno de tolerância, que se caracteriza pela
necessidade de doses cada vez maiores para se conseguir os mesmos
efeitos ou da diminuição do efeito inicial, quando
a mesma dose é utilizada (Labigaline, 1998). O DMT mostrou-se
uma exceção em estudo feito 1997, onde foi demonstrado
que essa substância, em uso isolado, não levou ao desenvolvimento
de tolerância crescente após doses subseqüentes
(Labigaline, 1998).
OS ESTADOS ALTERADOS DE CONSCIÊNCIA
A palavra consciência, na língua portuguesa, pode ter
um sentido ético, aparecendo como um juízo de valor
ou um sentido psicológico, caracterizando uma tomada de conhecimento
da realidade (Labigaline, 1998). A psicologia abre distinção
de duas ordens de fenômenos na atividade psíquica:
aqueles que temos conhecimento direto e imediato e aqueles que são
revelados de forma especial ou por meios indiretos, dessa forma,
a consciência representaria apenas uma parte da nossa psiquê
(Freud, 1969).
Consciência do eu, existe em todas os processos psíquicos,
seja como percepção, sensação do corpo,
recordação, pensamento, sentimento, do eu pessoal,
e chama-se personalização (Jaspers, 1954). Pressupõe
também a consciência do corpo físico, a forma,
a posição, os limites e os movimentos do corpo resultando
da integração de todas as sensações:
táteis, dolorosas e visuais (Jaspers, 1954).
Os chamados estados alterados de consciência podem ser classificados
em três conjuntos: embotamento ou entorpecimento, que se caracteriza
pela diminuição ou perda da amplitude ou claridade
da vivência, comum em quadros confusionais relacionados a
processos tóxicos orgânicos, como a uremia; o estreitamento
compreende, particularmente, a redução da amplitude
fenomênica do campo da consciência, e que se apresenta
em situações como sonambulismo, possessão,
transes mediúnicos e estados de êxtase religioso; e
o terceiro grupo, a obnubilação ou turvação,
em que estão presentes entorpecimento importante, alteração
do juízo de realidade e ideações anormais,
com variações importantes dependendo da etiopatogenia
do quadro, tais como delirium tremens, estados crepusculares epiléticos
e amência (Nobre de Melo, 1981).
Dentro deste modelo teórico descrito acima, pode-se caracterizar
o estado de consciência induzido pela Ayahuasca, em contexto
religioso, como um estreitamento da consciência (Labigaline,
1998). Tal alteração pode ser chamada de onírica,
por guardar semelhanças com os sonhos (Mayer-Gross, 1969).
Em contexto toxicológico, o estado de consciência pode
ser classificado como turvação com alteração
do juízo de realidade, onde está presente entorpecimento
importante.
Existem trabalhos que propõem quatro características
encontradas nos estados alterados de consciência (Labigaline,
1998): (1) Inefabilidade: algo que não pode ser explicado
com palavras em nenhum relato adequado do seu conteúdo. A
sensação necessita ser experimentada diretamente,
não pode ser comunicada ou transferida a outros; (2) Qualidade
noética: semelhantes a estados de sentimento, estados de
conhecimento, estados de visão interior dirigida a profundezas
da verdade não indagadas pelo raciocínio. São
revelações, cheias de significado e importância;
(3) Transitoriedade: não podem ser mantidos por muito tempo;
(4) Passividade: sensação de que a própria
vontade está adormecida e de que está sendo agarrado
por uma força superior. |