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| Diagnóstico diferencial das demências |
José Gallucci Neto1
Melissa Garcia Tamelini1 Orestes V. Forlenza2 |
1
Médico psiquiatra e pesquisador do Laboratório de Neurociências (LIM-27) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Endereço para correspondência: Orestes V. Forlenza. Laboratório de Neurociências – LIM 27, Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Av. Dr. Ovídio Pires de Campos s/n – 05403-010 – São Paulo – SP; e-mail: forlenza@usp.br |
| Resumo |
As síndromes demenciais são caracterizadas pela presença de déficit
progressivo na função cognitiva, com maior ênfase na perda de memória, e
interferência nas atividades sociais e ocupacionais. O diagnóstico diferencial
deve, primeiramente, identificar os quadros potencialmente reversíveis, de
etiologias diversas, tais como alterações metabólicas, intoxicações, infecções,
deficiências nutricionais etc. Nas demências degenerativas primárias e nas
formas seqüelares, o diagnóstico etiológico carrega implicações terapêuticas e
prognósticas. |
| Abstract |
Dementia is a syndrome characterized by progressive impairment of cognitive
functions, particularly in memory, which affects social and occupational activities.
The differential diagnosis must, firstly, identify potentially treatable causes of
cognitive impairment, addressing the different etiologies of reversible dementia
such as metabolic alterations, intoxications, CNS infections, and nutritional
deficiencies. The correct and early diagnosis of primary degenerative dementia
carries therapeutic and prognostic implications, which may attenuate the
inevitable cognitive and behavioral deficits. |
| Doença de Alzheimer |
| A doença de Alzheimer (DA) responde por cerca de 60%
de todas as demências, o que a torna a causa principal
de demência (LoGiudice, 2002). Quanto ao curso clínico,
apresenta-se com início insidioso e deterioração
progressiva. O prejuízo de memória é o evento clínico
de maior magnitude. Nos estágios iniciais, geralmente
encontramos perda de memória episódica e dificuldades
na aquisição de novas habilidades, evoluindo gradualmente
com prejuízos em outras funções cognitivas,
tais como julgamento, cálculo, raciocínio abstrato e
habilidades visuo-espaciais. Nos estágios intermediários,
pode ocorrer afasia fluente, apresentando-se
como dificuldade para nomear objetos ou para escolher
a palavra adequada para expressar uma idéia, e também
apraxia. Nos estágios terminais, encontram-se
marcantes alterações do ciclo sono–vigília; alterações
comportamentais, como irritabilidade e agressividade;
sintomas psicóticos; incapacidade de deambular, falar
e realizar cuidados pessoais. |
| Demência vascular |
| É largamente aceito que as doenças cerebrovasculares
possam ser responsáveis pelo desenvolvimento de
quadros demenciais. As demências vasculares (DV)
constituem a segunda maior causa de demência. |
| Demência mista |
| A demência mista é entidade nosológica caracterizada
pela ocorrência simultânea de eventos característicos
de DA e DV. De acordo com estudos patológicos, estimase
que mais de um terço dos pacientes com DA apresentem
também lesões vasculares, e proporção similar
de pacientes com DV exibam alterações patológicas
características de DA (Kalaria e Ballard, 1999). |
| Demência por corpúsculos de Lewy |
| A demência por corpúsculos de Lewy (DCL) acomete
cerca de 20% dos pacientes com demência. O
diagnóstico clínico é feito quando o declínio cognitivo é flutuante, acompanhado por alucinações visuais e
sintomas extrapiramidais. O quadro demencial apresenta-se com rápido início e declínio progressivo, com
déficits proeminentes na função executiva, resolução
de problemas, fluência verbal e performance audio-visual. As alucinações visuais são os únicos sintomas
psicóticos que diferenciam DCL de DA ou DV. Quanto
aos sintomas parkinsonianos, encontra-se hipomimia,
bradicinesia, rigidez e, menos comumente, tremor de
repouso. Sensibilidade a neurolépticos, quedas e
síncopes também estão presentes (LoGiudice, 2002). A definição exclui casos em que o parkinsonismo
precede a síndrome demencial em mais de 12 meses.
Este critério operacional pretende excluir pacientes
com doença de Parkinson que se tornaram demenciados
depois, mas a praticidade deste critério diagnóstico é questionável (Galvin, 2003). Os critérios
diagnósticos para demência de Lewy encontram-se no
item 3 do apêndice (McKeith et al., 1996). |
| Demência frontotemporal |
| O termo demência frontotemporal (DFT) caracteriza
uma síndrome neuropsicológica marcada por
disfunção dos lobos frontais e temporais, geralmente
associada à atrofia dessas estruturas, e relativa
preservação das regiões cerebrais posteriores. Estima-se que a DFT responda por 10% a 15% dos casos de
demência degenerativa, ocorrendo principalmente
após os 40 anos de idade, com igual incidência em
homens e mulheres (Mendez et al., 1993 ). |
| Doença de Huntington (DH) |
| A DH é doença autossômica dominante heredodegenerativa caracterizada por distúrbio do movimento, sintomas psiquiátricos e demência. É causada pela expansão do trinucleotídeo CAG no gene que codifica a proteína huntingtina, localizado no cromossomo 4 (4p16.3). A demência torna-se usualmente aparente após o surgimento dos sintomas coréicos e psiquiátricos. A memória é afetada em todos os aspectos e o aparecimento de afasia, apraxia, agnosia e disfunção cognitiva global ocorrem mais tardiamente (Quinn e Schrag, 1998). |
| Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) |
| DCJ é o protótipo de doença causada por príons em humanos. Trata-se de uma enfermidade infecciosa e invariavelmente fatal, que atinge o sistema nervoso central e caracteriza-se por demência rapidamente progressiva e envolvimento focal variável do córtex cerebral, gânglios da base, cerebelo, tronco cerebral e medula espinhal. Embora a transmissão de humanos para animais tenha sido demonstrada experimentalmente, a transmissão entre seres humanos (por transplante de córnea, implantação de eletrodos corticais etc.) parece ser rara (Johnson e Gibbs, 1998). O agente infeccioso está presente no cérebro, medula espinhal, olhos, pulmões, linfonodos, rins, baço, fígado, no líquido cefalorraqueano, mas não em outros fluídos corporais. |
| Demências reversíveis |
| As demências reversíveis são causas raras de demência.
Entretanto, são importantes do ponto de vista
diagnóstico, pois o tratamento adequado pode reverter
o declínio cognitivo. |
| Demências infecciosas |
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Complexo aids-demência |
| Alcoolismo |
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Algumas complicações do alcoolismo podem causar
demência. Estas incluem o hematoma subdural crônico
por traumatismo craniano, a degeneração hepatocerebral
por cirrose hepática e deficiências nutricionais.
A demência como acometimento neurológico por efeito tóxico direto do álcool tem sido proposta, embora
nenhuma anormalidade distintiva tenha sido observada
nos cérebros dos pacientes com demência pelo
uso do álcool (Victor, 1994). |
| Outras etiologias |
|
Diversas outras condições médicas estão associadas com
a presença de sintomas demenciais. Elas incluem
diversos distúrbios metabólicos e uso de medicações
(principalmente com efeitos anticolinérgicos, analgésicos
opiáceos e esteróides adrenocorticias). A tabela 3 reúne
as diferentes etiologias para as síndromes demenciais. |
| Apêndice. Critérios diagnósticos para as principais síndromes demenciais. |
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1) Doença de Alzheimer:
II. O diagnóstico de doença de Alzheimer PROVÁVEL é auxiliado por:
III. Outras características clínicas consistentes com o diagnóstico de doença de Alzheimer PROVÁVEL, após exclusão de outras causas de demência, incluem:
IV. As características que tornam o diagnóstico de doença de Alzheimer PROVÁVEL incerto ou pouco provável incluem:
2) Demência vascular
II. Características clínicas compatíveis com o diagnóstico de demência vascular PROVÁVEL:
III. Características que tornam o diagnóstico de demência vascular incerto ou pouco provável:
3) Demência com corpúsculos de Lewy:
3. Características que dão suporte ao diagnóstico são
4. O diagnóstico de DCL é menos provável na presença de:
4) Demência frontotemporal:
II. Características que dão suporte ao diagnóstico:
III. Características incompatíveis com o diagnóstico (critérios de exclusão):
IV. Características pouco compatíveis com diagnóstico:
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| Referências bibliográficas |
| ALARCÓN, F.; HIDALGO, F.; MONCAYO, J. et al. - Cerebral Cysticercosis
and Stroke. Stroke 23:224-8, 1992. |
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Órgão Oficial do Departamento e Instituto de Psiquiatria
Faculdade de Medicina - Universidade de São Paulo