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| Efeitos colaterais do metilfenidato |
|
Giuseppe
Pastura1
Paulo Mattos2 |
| 1Mestrando
em neurologia – Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pesquisador
do Grupo de Estudos do Déficit de Atenção (GEDA)
do IPUB/UFRJ 2Professor-adjunto da UFRJ, Coordenador do GEDA – Grupo de Estudos do Déficit de Atenção do IPUB/UFRJ Endereço
para correspondência: |
| Resumo |
| Objetivos: Revisar
os principais efeitos colaterais do metilfenidato, em curto e longo prazos,
no tratamento de crianças com Transtorno do Déficit de Atenção
(TDAH). Fontes de dados: Revisão de literatura
nos últimos doze anos através de pesquisa no Medline e Lilacs.
Resultados: Dentre os efeitos colaterais que surgem em
curto prazo, prevalecem a redução de apetite, insônia,
cefaléia e dor abdominal, sendo a maioria autolimitada, dose-dependente
e de média intensidade. Dentre aqueles em longo prazo, são
descritas alterações discretas de pressão arterial
e freqüência cardíaca e uma possível discreta
diminuição da estatura. O abuso e a dependência ao
medicamento são observados muito raramente. Conclusões:
O perfil de efeitos colaterais do metilfenidato é seguro, não
parecendo justificar o seu uso constrito no Brasil, ante os benefícios
robustos amplamente demonstrados na literatura. Palavras-chave: Metilfenidato, TDAH, déficit de atenção com hiperatividade/impulsividade. |
| Abstract |
| Objective: To review
main short-term and long-term side effects of methylphenidate in the treatment
of Attention-Deficit Disorder in children. Source of data:
A 12-year review in Medline and Lilacs. Results: Among
those side effects showed in the short-term, anorexia, insomnia, headache
and abdominal pain are the most common ones, being the majority self-limited,
dose-dependent and of medium intensity. Long-term side effects consist
of mild blood pressure and heart rate increase and possible light growth
suppression effect. Abuse and dependency are very rare. Conclusions:
Methylphenidate side effects profile is safe and does not seem to justify
its restricted use in Brazil, considering its solid benefits widely demonstrated
in literature. Keywords: Methylphenidate, ADHD, Attention-deficit Disorder with Hyperactivity. |
| Introdução |
| De acordo com a quarta edição
do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders ( American Psychiatric
Association 1994), DSM-4, o Transtorno do déficit de atenção
com hiperatividade/impulsividade (TDAH) consiste em um padrão persistente
de desatenção e/ou hiperatividade, mais freqüente e
grave do que aquele comumente encontrado em crianças de nível
de desenvolvimento semelhante. Surge antes dos sete anos de idade e interfere
em pelo menos duas áreas de atuação da criança,
como lar, colégio e grupo de amigos. Trata-se de enfermidade freqüentemente
subdiagnosticada pelo pediatra. Ocorrendo a suspeita clínica, é
importante o pronto encaminhamento para diagnóstico, uma vez que
o tratamento farmacológico se impõe. Um grande estudo randomizado iniciado em meados dos anos 1990 pelo Cooperative Group Multimodal Treatment Study of Children with ADHD (conhecido simplesmente como MTA) mostrou que a psicoterapia isolada, apesar de melhorar os sintomas de baixa auto-estima e sociabilidade, não foi eficaz no tratamento dos sintomas cardinais do transtorno. O uso de psicoestimulantes, como o metilfenidato, com ou sem psicoterapia associada, foi a melhor estratégia para o tratamento desses pacientes (Greenhill et al., 1996; The MTA Cooperative Group 1999). Existe uma considerável quantidade de dados atestando a segurança e eficácia do metilfenidato (Conners, 2002). Os efeitos mais robustos ( effect size) demonstrados ocorrem na esfera do comportamento e da atenção, com índice terapêutico em torno de 0,8; os menores efeitos ocorrem no desempenho acadêmico, com índices terapêuticos em torno de 0,4 a 0,5 (Conners, 2002). A eficácia clínica do metilfenidato já foi comprovada em mais de 1.500 estudos clínicos nos últimos 40 anos (Conners, 2002). |
| O metilfenidato |
| Drogas psicoestimulantes são
utilizadas no tratamento de crianças e adolescentes desde a década
de 1930 (Bradley, 1938). Seu mecanismo de ação é
o estímulo de receptores alfa e beta-adrenérgicos diretamente,
ou a liberação de dopamina e noradrenalina dos terminais
sinápticos, indiretamente. Seu início de ação
dá-se em 30 minutos, com pico em uma a duas horas, e meia-vida
de duas a três horas (Bennett et al., 1999). |
| Os efeitos colaterais em curto prazo |
| Em estudo duplo-cego controlado
acerca da freqüência de efeitos colaterais de metilfenidato
em crianças com TDAH, Barkley e cols. (1990) descreveram 17 sintomas
mais comuns em curto prazo. A tabela 1 apresenta os efeitos colaterais
em ordem de freqüência de aparecimento. Os mesmos são
comparados nos pacientes em uso de placebo, baixas (0,3 mg/kg) e altas
(0,5 mg/kg) doses de metilfenidato. |
| Efeitos colaterais em longo prazo |
| Em longo prazo, são três
os efeitos colaterais de maior importância do metilfenidato: dependência,
efeitos cardiovasculares e possível redução da estatura. Dependência medicamentosa do uso do metilfenidato é um risco mais teórico do que prático. Geralmente, o paciente com TDAH consegue um bem-estar muito grande ao utilizar a medicação, o que, na verdade, é um estímulo para manter seu tratamento de forma adequada. A farmacocinética do medicamento, com início relativamente lento de ação e pico sérico em uma hora, torna menos provável o abuso para fins recreativos. O risco de abuso pelo paciente é considerado raro, porém há relato anedótico de uso indevido por parte de familiares e amigos (Llana e Crismon, 1999; Klein-Schwartz, 2002) Estudo publicado por Klein-Schwartz (2002) descreve as principais manifestações clínicas causadas pela overdose de metilfenidato. São elas: agitação, crise convulsiva, alucinações, psicose, letargia, tonteira, taquicardia, hipertensão e hipertermia. Agitação, delírio e crise convulsiva podem ser tratados com benzodiazepínicos. Antipsicóticos são utilizados nos casos de alucinações. Bloqueadores do canal de cálcio e antagonistas alfa-adrenérgicos são recomendados para o controle da hipertensão. Lavagem gástrica é preconizada nos casos de ingesta oral maciça. Os efeitos cardiovasculares do metilfenidato são pontuais e transitórios. Logo após o uso da medicação, pode-se observar pequena elevação da pressão arterial, freqüência cardíaca e respiratória, porém tais alterações não se sustentam ao longo do tempo (Zeiner, 1995; Bennett et al., 1999; Findling et al., 2001). Quanto ao efeito de redução da estatura final de crianças com TDAH que fizeram uso de metilfenidato, encontramos dados conflituosos nos artigos disponíveis na literatura. Gittelman-Klein et al. (1998) em estudo controlado, observaram que pacientes que fizeram uso de metilfenidato por dois verões consecutivos sem férias do medicamento tiveram redução de 1,5 cm em comparação com os controles que tiveram férias da medicação. Já Kramer et al. (2000) demonstraram que pacientes que fizeram uso de metilfenidato não tinham sua estatura alterada se comparados ao alvo genético, à população em geral ou aos controles. Alguns indivíduos que apresentaram náuseas/vômitos e fizeram uso de altas doses de metilfenidato tiveram redução de estatura final. Spencer et al. (1996), em estudo controlado, observaram que o déficit estatural de crianças com TDAH deve-se ao próprio transtorno e não à medicação psicoestimulante utilizada. No estudo do MTA, documentou-se uma discreta redução da estatura e do peso (1 a 1,5 cm/ano e 1 a 2 kg/ano, respectivamente), que era dose-dependente. Esta redução pode não ser observada quando comparados a uma curva normal de crescimento, mas poderia afetar a estatura final caso não ocorra uma aceleração posterior ao final da adolescência. |
| Comentários e conclusões |
| O metilfenidato pode ser considerado medicação clinicamente segura no tratamento do TDAH, apresentando um perfil bastante satisfatório de efeitos colaterais. Aqueles ocorrendo em curto prazo são de pequena gravidade, autolimitados, dose-dependentes e facilmente contornáveis pelo médico. Embora menos estudados, os efeitos colaterais em longo prazo não são considerados como clinicamente graves, à exceção da dependência, fenômeno apenas muito raramente observado. |
| Referências bibliográficas |
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Órgão Oficial do Departamento
e Instituto de Psiquiatria
Faculdade de Medicina - Universidade
de São Paulo