EDITORIAL

Métodos de imagem em psiquiatria

Há algumas décadas, era inconcebível a cena de um radiologista auxiliando um psiquiatra a desvendar a fisiopatologia de um transtorno psiquiátrico. Entretanto, com o desenvolvimento dos métodos de diagnóstico por imagem, esta simbiose se concretizou e se estreita cada vez mais.

Quando deve um psiquiatra solicitar um exame de imagem para seu paciente?

Os métodos de imagem têm dois papéis fundamentais no diagnóstico de doenças psiquiátricas. Primeiro, excluir patologias que possam gerar sintomas psiquiátricos, como, por exemplo, lesões isquêmicas e tumores. Segundo, pesquisar possíveis alterações estruturais ou funcionais como causa primária de transtornos psiquiátricos. Por meio dos métodos de diagnóstico por imagem, pode-se estudar a morfologia e a função do encéfalo.

Vários métodos permitem o estudo da morfologia do encéfalo. A radiografia simples de crânio, disponível desde o século XIX, foi o embrião da colaboração entre a radiologia e a psiquiatria, ao permitir o diagnóstico de hipertensão intracraniana e de alguns tipos de tumores, possíveis causadores de sintomas psiquiátricos. A angiografia cerebral proporcionou o diagnóstico de infartos cerebrais e de diversos tipos de tumores. A pneumoencefalografia, com a introdução de gás no espaço subaracnóide, demonstrou pela primeira vez in vivo os ventrículos, permitindo a correlação entre dilatação ventricular e determinadas patologias psiquiátricas. As tomografias computadorizada revolucionou o estudo do sistema nervoso central. Com ela, pôde-se estudar a morfologia e dimensão dos ventrículos e do espaço subaracnóide. As substâncias branca e cinzenta passaram a ser distinguidas. Patologias intracranianas puderam ser estudadas de modo não invasivo e com detalhes impossíveis de serem obtidos por outros métodos. Até os dias de hoje, a tomografia computadorizada é utilizada em psiquiatria, não só para o diagnóstico de doenças do sistema nervoso central, causando sintomas psiquiátricos, como, também, na correlação entre tamanho ventricular ou atrofia cortical e doenças psiquiátricas. Nova revolução ocorreu com a ressonância magnética. Atualmente, considerado o padrão-ouro dos métodos de imagem que estudam a morfologia do encéfalo, demonstra a anatomia intracraniana normal e patológica com uma riqueza de detalhes comparável àquela obtida por cortes macroscópicos de anatomia patológica. A medida de áreas e volumes de estruturas do encéfalo, chamada de morfometria, foi e ainda é muito utilizada em psiquiatria, havendo, na literatura, inúmeros trabalhos que tentam correlacionar transtornos psiquiátricos e alterações dessas áreas e volumes.

Dentre os métodos de imagem que estudam a função cerebral, o mais tradicional é a medicina nuclear. As técnicas mais modernas de medicina nuclear, tomográficas, que são a Spect (tomografia computadorizada de emissão de fóton único) e a PET (tomografia por emissão de pósitrons) são amplamente utilizadas em psiquiatria para estudo da função cerebral, como será discutido nos artigos subseqüentes. Mais recentemente, a ressonância magnética vem contribuindo para o estudo da função cerebral por duas técnicas, a espectroscopia por ressonância magnética e a ressonância magnética funcional. A primeira permite o estudo do metabolismo cerebral in vivo, de acordo com o tipo de

núcleo estudado (prótons de hidrogênio ou fósforo). A segunda gera imagens indiretas do funcionamento neuronal, ao detectar pequenas alterações dos níveis da oxi e deoxi-hemoglobina, antes e após determinada atividade neuronal.

Várias alterações encontradas nos encéfalos de pacientes com doenças psiquiátricas são evidentes apenas quando se comparam grupos de sujeitos, mas não se aplicam para o diagnóstico individual. Muitos trabalhos são conflitantes, o que nos leva a crer que a verdade sobre a base biológica de algumas doenças psiquiátricas ainda não foi alcançada.

Portanto, no seu atual estágio de desenvolvimento, os métodos de diagnóstico por imagem devem ser utilizados, na prática clínica, para se excluir doença orgânica como causa de sintoma psiquiátrico em um determinado indivíduo.

Esperamos que, em um futuro próximo, a grande contribuição, que os métodos de imagem vêm trazendo para a pesquisa de bases biológicas de distúrbios psiquiátricos, possa ser aplicada ao indivíduo.

Cláudio Campi de Castro
Radiologista _ Médico Chefe da Seção de
Ressonância Magnética do Instituto do Coração (Incor)

Hospital das Clínicas da Faculdade de
Medicina da Universidade de São Paulo

 


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