REVISÕES DE LITERATURA

Erva-de-são-joão: um novo antidepressivo?

Hildeberto Tavares Jr.1


RESUMO

A erva-de-são-joão tem sido usada como antidepressivo na última década. O autor apresenta os principais dados experimentais que explicam a ação antidepressiva dos extratos de Hypericum perforatum e discute a eficácia clínica do composto, baseado nos estudos realizados até o momento.

Unitermos: Erva-de-são-joão; Hiperforina; Mecanismo de ação; Eficácia clínica; Antidepressivo.

ABSTRACT

Saint john's wort: a new antidepressive?

St. John's wort has been used as antidepressant in the past decade. This article presents the main experimental findings that explain Hypericum perforatum's antidepressant action. A discussion on the clinical efficacy of this compound is also made.

Key words: St. John's wort; Hyperforin; Mechanism of action; Clinical efficacy; Antidepressant.


A erva-de-são-joão (Hypericum perforatum) é uma planta da família Guttiferae, encontrada em toda a Europa, na Ásia, no norte da África e na América do Norte. Os principais constituintes do Hypericum perforatum são: naftodiantronas, como as hipericinas; acilfloroglicinóis, como a hiperforina; glicosídeos flavonóides; biflavonas; proantocianidinas e fenilpropanos (Erdelmeier, 1998).

Desde a Idade Média, recomenda-se o uso da erva-de-são-joão como medicamento para as mais diversas afecções, inclusive para quadros de depressão. Extratos do Hypericum perforatum têm sido usados na última década como antidepressivos na Alemanha e estão hoje dentre os antidepressivos mais utilizados naquele país. Em 1997, com mais de 3,7 milhões de prescrições, o Hypericum foi responsável por 25% das prescrições de antidepressivos na Alemanha (Laakmann et al., 1998).

Alguns estudos, comparando o Hypericum perforatum com placebo e com antidepressivos tricíclicos, têm demonstrado que a erva-de-são-joão realmente tem eficácia clínica no tratamento de depressões leves e moderadas (Laakmann et al., 1998). Apesar disso, não se conhece o exato mecanismo de ação, nem se tem certeza de qual é o componente relacionado com a ação antidepressiva.

Inicialmente, acreditava-se que a ação antidepressiva da erva-de-são-joão era devida à inibição da monoaminaoxidase (MAO) pelos componentes flavonóides. Atualmente, sabe-se que tal explicação é insuficiente, tanto pela baixa concentração dos flavonóides no Hypericum quanto pelos estudos experimentais realizados que não comprovaram essa hipótese (Schellenberg et al., 1998). Por algum tempo, atribuiu-se a ação antidepressiva da erva às hipericinas por suas concentrações mais elevadas, mas, hoje, o componente mais cotado para explicar a ação antidepressiva do Hypericum perforatum é a hiperforina, antes desconsiderada por ser um composto instável ao calor e à luz.

Chatterjee et al. (1998), utilizando alguns modelos experimentais, demonstraram que a hiperforina e os extratos de Hypericum contendo hiperforina são capazes de inibir a recaptação de serotonina por células intestinais de cobaias e de antagonizar receptores serotoninérgicos 5-HT3 e 5-HT4. A hiperforina também inibe a recaptação de serotonina, noradrenalina e dopamina, além de promover down-regulation de receptores ß-adrenérgicos e de receptores 5-HT2 no córtex frontal de ratos (Müller et al., 1998). Bhattacharya et al. (1998) encontraram ações diferentes sobre o sistema dopaminérgico e o serotoninérgico, utilizando dois extratos (etanol e CO2) de Hypericum, com concentrações diferentes de hiperforina, em modelos comportamentais animais.

Autores que estudaram as ações da hiperforina sobre o EEG, tanto de ratos quanto de humanos (Dimpfel et al., 1998; Schellenberg et al., 1998), encontraram alterações especialmente nas ondas de freqüência lenta. Essas alterações foram mais importantes com concentrações mais altas de hiperforina e são semelhantes àquelas encontradas com o uso de antidepressivos convencionais.

Laakmann et al. (1998) estudaram 147 pacientes com depressão leve ou moderada, tratados com extrato de erva-de-são-joão com 5% ou 0,5% de hiperforina ou com placebo. Encontraram superioridade na resposta daqueles tratados com o extrato com concentração maior de hiperforina, mas não foram observadas diferenças estatisticamente significativas entre os outros dois grupos. Esse dado corrobora a eficácia antidepressiva da erva-de-são-joão e reforça o fato de ser a hiperforina a substância relacionada a tal ação.

Outros ensaios clínicos, que compararam a ação da erva-de-são-joão com placebo, comprovaram a eficácia desse composto no tratamento de pacientes com depressões leves e moderadas (Hansgen et al., 1994; Linde et al., 1996). No entanto, ainda não está claro na literatura se o Hypericum é comparável aos tratamentos antidepressivos já consagrados. Kasper (1997) não encontrou superioridade na combinação de fototerapia ao extrato de Hypericum para o tratamento de depressão sazonal.

Wheatley (1997), num estudo controlado com pacientes com depressão leve ou moderada tratados com amitriptilina ou com extrato de Hypericum, não encontrou diferença estatisticamente significativa entre os dois grupos nas 6 semanas do estudo, mas após a 6a semana houve melhor resposta com amitriptilina. Além disso, a dose de amitriptilina utilizada nesse estudo foi de 75 mg/dia, o que poderia justificar a eficácia comparável encontrada nas primeiras 6 semanas.

Para o tratamento de indivíduos com depressão grave, um único estudo (Vorbach et al., 1997) utilizou a erva-de-são-joão e encontrou uma resposta melhor naqueles tratados com imipramina, apesar de os pacientes tratados com o extrato de Hypericum terem apresentado consideravelmente menos efeitos colaterais, assim como nos outros estudos citados. Não são vistas também alterações eletrocardiográficas, como o atraso de condução dos antidepressivos tricíclicos, com o extrato de Hypericum perforatum (Czekalla et al., 1997).

A maior parte dos estudos realizados até hoje utilizou doses de 900 a 1.200 mg/dia de extrato de Hypericum com hiperforina a 5%, em 2 ou 3 tomadas e essa posologia parece estar de acordo com estudos de biodisponibilidade e farmacocinética (Biber et al., 1998). Assim, devemos atentar ao fato de estarmos falando de uma droga, que tem uma dose necessária para sua ação, em uma forma de apresentação definida. Isso significa que não podemos esperar que pacientes com síndromes depressivas caracterizadas se tratem com infusões de ervas compradas nas feiras livres. Além do mais, a planta mais conhecida
em nosso país como erva-de-são-joão nada tem a ver com o Hypericum perforatum ou a família Guttiferae.

Considerando as evidências clínicas e experimentais apresentadas, parece bastante razoável o uso da hiperforina no tratamento de pacientes com depressões leves e moderadas, especialmente se compararmos o perfil de efeitos colaterais bastante reduzidos da hiperforina em relação aos antidepressivos tradicionalmente utilizados.

 


REFERÊNCIAS

Bhattacharya, S.K.; Chakrabarti, A. & Chatterjee, S.S. _ Activity profile of two hyperforin-containing Hypericum extracts in behavioral models. Pharmacopsychiat 31(Suppl 1): 22-29, 1998.

Biber, A.; Fisher, H.; Römer, A. & Chatterjee, S.S._ Oral bioavailability of hyperforin from Hypericum extracts in rats and human volunteers. Pharmacopsychiat 31(Suppl 1): 36-43, 1998.

Chatterjee, S.S.; Nöldner, M. & Erdelmeier, C. _ Antidepressant activity of Hypericum perforatum and hiperforin: the neglected possibility. Pharmacopsychiat 31(Suppl 1): 7-15,1998.

Czecalla, J.; Gastpar, M.; Hubner, W.D. & Jager, D. _ The effect of Hypericum extract on cardiac conduction as seen in the electrocardiogram compared to that of imipramine. Pharmacopsychiat 30 (Suppl 2): 86-8, 1997.

Dimpfel, W.; Schober, F. & Mannel, M. _ Effects of methanolic extract and hiperforin-enriched CO2 extract of St. John's wort (Hypericum perforatum) on intracerebral field potentials in the freely moving rat (tele-stereo-EEG). Pharmacopsychiat 31(Suppl 1): 30-35, 1998.

Erdelmeier, C.A.J. _ Hiperforin, possibly the major non-nitrogenous secondary metabolite of Hypericum perforatum L. Pharmacopsychiat 31 (Suppl 1): 2-6, 1998.

Hansgen, K. D.; Vesper, J. & Ploch, M. _ Multicenter double-blind study examining the antidepressant effectiveness of the Hypericum extract LI 160. J Geriatr Psychiatry Neurol 7 (Suppl 1): 15-8, 1994.

Kasper, S. _ Treatment of seasonal affective disorder with Hypericum extract. Pharmacopsychiat 30 (Suppl 2): 89-93, 1997.

Laakmann, G.; Schüle, C.; Baghai, T. & Kieser, M. _ St. John's wort in mild to moderate depression: the relevance of Hyperforin for the clinical efficacy. Pharmacopsychiat 31 (Suppl 1): 54-59, 1998.

Linde, K.; Ramirez, G.; Mulrow, C.D.; Pauls, A.; Weidenhammer, W. & Melchart, D. _ St John's wort for depression _ an overview and meta-analysis of randomised clinical trials. BMJ 313 (7052): 253-8, 1996.

Müller, W.E.; Singer, A.; Wonnemann, M.; Hafner, U.; Rolli, M. & Schäfer, C. _ Hyperforin represents the neurotransmitter reuptake inhibiting constituent of Hypericum extract. Pharmacopsychiat 31(Suppl 1): 16-21, 1998.

Schellenberg, R.; Sauer, S. & Dimpfel, W. _ Pharmacodynamic effects of two different Hypericum extracts in healthy volunteers measured by quantitative EEG. Pharmacopsychiat 31(Suppl 1): 44-53, 1998.

Vorbach, E. U.; Arnoldt, K. H. & Hubner, W. D. _ Efficacy and tolerability of St. John's wort extract LI 160 versus imipramine in patients with severe depressive episodes according to ICD-10. Pharmacopsychyat 30 (Suppl 2): 81-5, 1997.

Weatley, D. _ LI 160, an extract of St. John's wort, versus amitriptyline in mildly to moderately depressed outpatients _ a controlled 6-week clinical trial. Pharmacopsychiat 30 (Suppl 2): 77-80, 1997.

 

 

 



1 Médico residente do Instituto de Psiquiatria _ HCFMUSP.

Endereço para correspondência: Rua Dr. Ovídio Pires de Campos s/n _ 05403-010 São Paulo, SP. Tel. (011) 3069-6965

 

 

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