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DOPPLER DE CARÓTIDAS: O QUE SE PODE VER ALÉM DA
ESTENOSE
Melo, E.L.A; Cevasco, F.K.K.I; Menezes, M.R; Cerri, G.G.
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Introdução
O estudo das artérias
carótidas internas (ACI) utilizando ultra-sonografia com mapeamento
doppler é um exame freqüentemente requisitado na prática
diária do radiologista. Atualmente, a grande maioria dos exames
realizados é indicada devido a suspeita de estenose nas ACI de
origem arteriosclerótica.
A dopplervelocimetria representa um gráfico quantitativo das
velocidades e direções do fluxo das hemácias presentes
na amostra escolhida. O principal indicador utilizado para a pesquisa
de estenose é a medida da velocidade do fluxo associada à
identificação de placas ateromatosas, calcificadas ou
não, no bulbo e na emergência da ACI. Entretanto, o estudo
cuidadoso dos padrões espectrais desses vasos e, principalmente,a
dissociação entre a imagem e o padrão espectral
encontrado podem apontar para entidades nosológicas outras situadas
no próprio vaso ou distalmente a ele, como dissecções,
edema cerebral difuso ou regional, hematomas intracranianos, morte cerebral.
Há outras condições clínicas nas quais se
observam alterações nas determinações das
velocidades nas ACI, assim como no seu padrão espectral: arritmias
cardíacas, lesões valvulares aórticas e cardiomiopatias
graves [1].
O fluxo normal na ACI tem baixa resistência .As principais alterações
da espectrodopplervelocimetria observadas nas ACI relacionadas a condições
patológicas intracranianas demostram um aumento da resistência
do fluxo, que se caracteriza por redução da diástole,
diástole zero ou diástole reversa - esta última
caracterizando ausência de fluxo à jusante do ponto de
amostragem.
Discutiremos, a seguir, alguns casos ilustrativos nos quais se observa
variabilidade de padrões dopplervelocimétricos das artérias
carótidas.
CASO
01
K.C.M., 01 ano, masculino. Diagnóstico de meningite por pneumococo
que evoluiu rapidamente para coma arreativo. O estudo doppler mostrou
acentuada redução da velocidade de pico sistólico
e diástole reversa na artéria carótida comum (figs.
1a e 1b), interna (figs. 1c e 1d) e vertebral bilateralmente (figs.1e
e 1f). O doppler transcraniano mostrou ausência de fluxo nos vasos
do polígono de Willis e parênquima encefálico heterogêneo,
com áreas hiperecogênicas (figs.1g e 1h).
DIAGNÓSTICO: MORTE CEREBRAL
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O
diagnóstico de morte cerebral tem importantíssimas implicações
médico-legais. A disponibilidade de potenciais doadores de órgãos
é uma delas. Dentre as principais causas de um relativo pequeno
número de doadores de órgãos, o retardo no diagnóstico
da morte cerebral desempenha um papel de destaque. Apesar de controverso,
o conceito de morte encefálica é considerado o equivalente
a parada de fluxo sangüíneo cerebral, que pode ser avaliada
por medicina nuclear ou arteriografia cerebral. Entretanto, essas técnicas,
além de não serem disponíveis em todos os centros
médicos, requerem o transporte de pacientes que apresentam-se instáveis
hemodinamicamente e dependentes de ventilação mecânica.
O
método ideal para o diagnóstico de morte cerebral deveria
ser não-invasivo, de alta sensibilidade e especificidade, possível
de ser realizado no leito. A ultra-sonografia com doppler carotídeo
cervical quando associada ao estudo transcraniano é um teste confirmatório
útil para estabelecer a irreversibilidade da parada circulatória
cerebral como uma parte opcional de um protocolo de morte cerebral [2].
Segundo Yoneda et al.[3] um pico sistólico único de baixa
intensidade e um componente de fluxo diastólico reverso nas artérias
carótidas comuns (ACC) sugerem morte cerebral e McMenamin e Volpe
[4] descreveram um padrão de fluxo na ACC e cerebral média
(ACM) na morte encefálica de recém-nascidos com uma modificação
de velocidade em ambas as artérias que foi a significativa redução
de velocidade de pico sistólico com perda do fluxo e/ou fluxo reverso
na diástole.
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CASO
02
E.A., 35 anos, masculino. Quadro de cefaléia intensa, sem
déficits neurológicos, referindo dor cervical à
esquerda. O estudo doppler mostrou ausência de fluxo na ACIE,
com velocidade de pico sistólico bastante reduzida, de 12 cm/s
e diástole reversa (figs. 2a e 2b). O estudo angiográfico
evidencia o vaso com afilamento gradual de seu calibre, caracterizando
imagem em "ponta de lápis" (fig. 2c).
DIAGNÓSTICO:
DISSECÇÃO DA ARTÉRIA CARÓTIDA INTERNA ESQUERDA
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CASO
03
J.V.D., 45 anos, feminino. Paciente hipertensa chegou ao pronto-socorro
com quadro de hemiparesia direita e afasia. A tomografia computadorizada
mostra uma área de isquemia fronto-parietal esquerda (fig. 3a).
O estudo doppler mostrou ausência de fluxo nas artérias carótidas
internas direita e esquerda (figs. 3b, 3c, 3d, 3e e 3f). O estudo angiográfico
mostra pronunciado afilamento dos vasos carotídeos internos mais
acentuado a direita com quase oclusão do mesmo (figs. 3g e 3h).
DIAGNÓSTICO: DISSECÇÃO BILATERAL DE ARTÉRIAS
CARÓTIDAS INTERNAS, COM AVI PROVAVELMENTE EMBÓLICO EM TERRITÓRIO
DA ARTÉRIA CEREBRAL MÉDIA ESQUERDA.
A dissecção espontânea da ACI é uma causa relativamente
incomum de sintomatologia cerebrovascular, com uma incidência estimada
em 0,4 a 2,5%, e a apresentação clínica é
bastante variável. Déficits neurológicos agudos como
hemiparesia, disfasia e perda visual predominam, mas cefaléia,
dor cervical e síndrome de Horner podem ocorrer, sendo uma causa
significante de acidente isquêmico em pacientes jovens [5]. A fisiopatologia
desse tipo de dissecção ainda é freqüente objeto
de estudo.
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A
dinâmica do fluxo nas dissecções carotídeas
é complexa e depende primariamente da presença ou não
de trombo no falso lúmen, do "flap" e da extensão
da dissecção. Por esta razão, a dopplervelocimetria
apresenta um padrão variável. A principal característica
observada é uma dissociação da imagem com o padrão
de fluxo encontrado, na qual as poucas ou nenhuma alterações
visíveis no modo B não justificam a anormalidade espectral
visibilizada. Além disso, pode identificar-se ausência de
sinal na oclusão total com fluxo proximal de alta resistência
e fluxo bidirecional de alta resistência como achados mais freqüentes.
Estreitamento do lúmen verdadeiro pelo trombo no falso lúmen,
presença de um falso lúmen patente (padrão "duplo
lúmen") com fluxo anterógrado, retrógrado ou
bidirecional podem ser identificados. A resolução da dissecção
é comum ocorrendo em 68% dos pacientes em até cerca de 50
dias [7]. A severidade dos sintomas parece não estar relacionada
com o padrão dopplerfluxométrico em particular. Apesar de
que a trombose do falso lúmen represente o ponto final das flutuações
de dinâmica de fluxo, este aspecto não se relaciona diretamente
com a severidade dos sintomas, sugerindo que o evento embólico
na dissecção deva desempenhar papel importante na severidade
dos sintomas com vimos no caso 03 [5].
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CASO
04
M.F.S., 70 anos, masculino, com diagnóstico de AVC hemorrágico
parietal esquerdo (fig. 4a). O estudo doppler mostrou diástole
zero nas artérias carótidas internas direita e esquerda
(figs. 4b e 4c).
DIAGNÓSTICO:
HIPERTENSÃO INTRACRANIANA
Ao realizar-se um estudo ultra-sonográfico com doppler é
importante considerar que tanto o fluxo na ACC quanto na veia jugular
interna podem mudar não apenas devido ao processo patológico
dos vasos, mas também devido a alterações na impedância
no seu território de distribuição [8].
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Artérias
que suprem circulações com alta resistência freqüentemente
demonstram uma velocidade diastólica baixa ou até mesmo
reversa , são caracterizadas por uma rápida aceleração
na sístole precoce, uma reversão do fluxo na diástole
precoce e uma diástole ondulada [9]. Tais alterações
podem ser encontradas no território carotídeo devido ao
aumento agudo de pressão intracraniana de diferentes etiologias
como trauma crânio-encefálico, acidentes cerebrais isquêmicos
e hemorrágicos..
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CASO
05
M.F.L., 60 anos, feminino, pré-operatório de cirurgia cardíaca.
O estudo doppler colorido mostrou acentuado afilamento na emergência
da artéria carótida interna esquerda e acentuada elevação
da velocidade de pico sistólico e diastólico, com "aliasing"
(figs. 5a e 5b).
DIAGNÓSTICO: ESTENOSE SEVERA DA ARTÉRIA CARÓTIDA
INTERNA ESQUERDA
A ultra-sonografia com doppler é um método comum,
não-invasivo, rápido e relativamente barato freqüentemente
utilizado para o estudo de doença carotídea em idosos [10].
Os pacientes com estenose crítica ou severa têm importante
redução do lúmen do vaso, demostrado no estudo doppler
colorido, assim como nas velocidades de pico sistólico e diastólico
aferidas. Apresentamos esse caso de estenose carotídea severa a
título de comparação com os demais casos.
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REFERÊNCIAS
1. Carroll BA. Carotid Ultrasound. In Neuroimaging Clinics of North America,
1996 Nov 6; 4: 875-95
2. Payen DM, Lamer C, Pilorget A, Moreau T, Beloucif S, Echter E. Evaluation
of pulsed Doppler common carotid blood flow as a noninvasive method for
brain death diagnosis: a prospective study. Anesthesiology 1990 Feb; 72(2):
222-9
3. Yoneda S, Nashimoto A, Nukada T, Kuiriyama Y, Katsurada K, Abe H. To-and-fro
movement and external escape of carotid arterial blood in brain death cases:
A Doppler ultrasonic study. Stroke, 1975, 5: 707-12
4. McMenamin JB, Volpe JJ. Doppler ultrasonography in the determination
of neonatal brain death. Ann Neurol 1983, 14: 302-7
5. Sidhu PS, Jonker ND, Khaw KT, Patel N, Blomley MJ, Chaudhuri KR, Frackowiak
RS, Cosgrove DO. Spontaneous dissections of the internal carotid artery:
appearances on colour Doppler ultrasound. Br J Radiol 1997 Jan; 70:50-7
6. Guillon B, Tzourio C, Biousse V, Adrai V, Bousser MG, Touboul PJ Arterial
wall properties in carotid artery dissection: an ultrasound study. Neurology
2000 Sep 12; 55(5): 663-6
7. Steinke W, Rautenberg W, Schwartz. A Noninvasive monitoring of internal
carotid artery dissection. Stroke 1994; 25: 998-1005
8. Liboni W, Bertolotto A, Urciuoli R. Relationship between intracranial
hypertension and ultrasonic patterns of the common carotid artery and the
internal jugular vein. J Neurosurg Sci 1983 Jan-Mar; 27(1): 23-30
9. Halpern EJ, Merton DA and Forsberg F. Effect of distal resistance on
Doppler US flow patterns Radiology. 1998 Mar; 206(3): 761-6.
10. O'Boyle MK, Vibhakar NI, Chung J, Keen WD, Gsosink BB. Duplex sonography
of the carotid artery in patients with isolated aortic stenosis: imaging
findings and relation to severity of stenosis. Am J Roentgenology 1996 Jan;
166(1): 197-202.
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