 |
|
|
ANEURISMAS
ARTERIAIS ESPLÂNCNICOS - EXPERIÊNCIA DO SERVIÇO
DE RADIOLOGIA DE EMERGÊNCIA
Garcia, R.G.;
Kamiya, C.A.; Ishikawa, W.Y.; Menezes, M.R. ; Cerri, G. G..
|
|
Introdução:
Os aneurismas e pseudoaneurismas de artérias esplâncnicas
são relativamente incomuns, consistindo, entretanto, em lesões
vasculares de grande importância.
Suas
causas incluem arterioesclerose, trauma , cirurgia, inflamação,
infecção, necrose da camada média, doenças
do colágeno, arterites e anomalias congênitas.
Embora a grande maioria apresente uma evolução assintomática,
consistindo muitas vezes em achados diagnósticos incidentais,
sua ruptura apresenta elevada mortalidade, com apresentações
clínicas muitas vezes dramáticas.
O objetivo do nosso trabalho é relatar a experiência do
Serviço de Radiologia de Emergência do HC-FMUSP no diagnóstico
dos aneurismas e pseudo-aneurismas arteriais esplâncnicos.
Descrição dos casos
Seis pacientes portadores de aneurismas arteriais esplâncnicos,
divididos em causas traumáticas e não relacionadas a traumatismo
abdominal.
A- Causa traumáticas
Caso 01: Masculino, 29 anos, trauma automobilístico (auto
x auto) há 5 dias, com laceração esplênica
rafiada através de laparotomia exploradora em outro serviço.
Paciente evolui assintomático. Em reavaliação ultra-sonográfica
pós-trauma observou-se imagens anecogênicas de permeio
ao parênquima esplênico. Realizado a seguir tomografia computadorizada
, confirmando o pseudoaneurisma. Após 20 dias, realizado novo
Doppler, que mostrou trombose espontânea do pseudoaneurisma. Tal
achado foi interpretado como decorrência da baixa intensidade
do fluxo em seu interior.
|
 |
 |
|
|
USG:
Imagens anecogênicas de permeio ao parênquima
esplênico, que apresentam fluxo ao Doppler colorido.
|
|
 |
|
|
|
TC:
TC evidenciando pseudoaneurisma da
artéria esplênica.
|
 |

|
|
| Doppler
de controle: Observa-se trombose do pseudoaneurisma. |
Caso
02: Masculino, 44 anos, vítima de trauma automobilístico
(auto X auto), há x dias. Realizado ultra-sonografia , seguido
de tomografia computadorizada e arteriografia , que evidenciaram um
pseudoaneurima de artéria esplênica
|
 |
|
|
USG:
USG mostrando baço com
textura heterogênea e área
anecogênica de permeio.
|
Doppler
mostrando fluxo intra-esplênico com turbilhonamento sugestivo
de pseudoaneurisma
|
 |
|
|
TC:
TC mostrando acúmulo de contraste venoso no interior do baço,
que tem atenuação heterogênea.
|
Arteriografia
digital:Angiografia digital mostrando pseudoaneurisma intra-esplênico
pós traumático
|
|
Caso
03: Masculino, 22 anos, vítima de ferimento por arma de fogo
em abdome, há 1 mês sendo realizada laparotomia em outro
serviço com rafia hepática e do cólon direito. Recebeu
alta. Procurou o serviço devido a saída de secreção
na cicatriz de dreno na parede abdominal lateral direita. Realizado inicialmente
ultra-sonografia , seguida de tomografia computadorizada , que confirmou
o diagnóstico de pseudoaneurisma de artéria hepática
direita. Realizado ainda angiografia digital , com embolização
do pseudoaneurisma com sucesso.
|
 |

|
|
|
USG:
Formação cística no fígado, associada a zona
heterogênea no parênquima hepático.. Ao Doppler colorido
a área cística apresenta fluxo turbulento, notando-se sua
comunicação com a artéria hepática direita.
|
 |
|
Hemobilia
caracterizada por sangue no interior da vesícula biliar
|
CT:
CT com contrate evidencia uma coleção com área
nodular periférica que apresenta realce (pseudoaneurisma). Nota-se
ainda a presença de contraste no interior da coleção
(fistulografia prévia).
|
 |

|
|
|
Angiografia:
pseudoaneurisma da artéria hepática direita. (pré
e pós embolização)
|
B-
Não traumaticas
Caso 04: Masculino, 35 anos, etilista, histórico de pancreatites
de repetição. Há 5 dias, dor epigástrica
de forte intensidade. Realizado inicialmente ultra-sonografia com Doppler
colorido (Fig ), seguida por tomografia computadorizada , confirmando
o diagnóstico de pseudoaneurisma de artéria esplênica.
|
|
|
|
|
USG:
1- volumosa dilatação
pseudoaneurismática da art. esplênica.
|
2-
Doppler colorido mostrando fluxo turbilhonado.
|
|
|
|
|
CT
: Pseudoaneurisma da art. esplênica com trombo
|
Nota-se
rotura e coleção adjacente.
|
Caso
05: Masculino, 44, etilista crônico, com queixa de dor abdominal
e esteatorréia há cerca de 1 ano. Há 3 dias, relata
aumento da dor abdominal. Solicitado tomografia computadorizada , que
evidenciou um pseudoaneurisma de aréria gastroduodenal.
|
|
|
|
|
|
CT:
Calcificações pancreáticas e dilatação
sacular da artéria gastroduodenal, que se encontra parcialmente
trombosada.
|
Caso
06: Feminino, 85 anos, colecistectomia aberta em outro serviço
há cerca de 1 ano, evoluindo há 2 dias com enterorragia,
melena e dor abdominal. Realizado USG (sem doppler) que evidenciou uma
lesão nodular hipoecogênica com centro anecogênico
junto ao hilo hepático. Realizado a seguir tomografia helicoidal
do abdome que demonstrou o pseudoaneurima da artéria hepática
direita, em comunicação com a árvore biliar. Observou-se
ainda uma variação anatômica, que é a artéria
hepática direita emergindo direto da aorta abdominal, que talvez
tenha favorecido uma lesão inadvertida no procedimento cirúrgico.
Durante sua internação, a paciente apresentou enterorragia
maciça, sendo submetida a laparotomia de emergência que
confirmou estes achados. A paciente evoluiu a óbito no 1o pós-operatório,
decorrente de complicações cardio-pulmonares.
|
|
|
|
|
|
CT:
Artéria hepática direita emergindo diretamentente da aorta
abdominal, obsevando-se dilatação sacular intra-hepática,
próximo ao hilo, caracterizando um pseudoaneurisma parcialmente
trombosado.
|
Discussão
A formação de pseudoaneurismas arteriais no interior do
parênquima esplênico é um fenômeno raro após
trauma abdominal. A fisiopatologia proposta é a formação
de um hematoma de expansão progressiva continuamente irrigado
por artérias laceradas da polpa esplênica acometida.
Sua história natural ainda é motivo de controvérsia
na literatura, consistindo, entretanto, em mecanismo conhecido de hemoperitôneo
tardio pós-trauma na vigência de uma rotura, com taxas
de mortalidade estimadas em cerca de 40%.
O desenvolvimento de fístulas artério-venosas é
uma evolução possível dos aneurismas, quando da
rotura para veias adjacentes. Ao contrário da maioria das fístulas
artério-venosas sistêmicas, as fístulas esplâncnicas
não cursam com sintomas de insuficiência cardíaca
de alto débito, permanecendo em sua grande maioria assintomáticas
por períodos de tempo variáveis. Podem cursar, entretanto,
com hipertensão portal, diarréia e dor abdominal crônica,
estas últimas secundárias à síndrome do
roubo mesentérico.
O diagnóstico precoce e acurado faz-se, portanto, de fundamental
importância ao manejo seguro desta entidade, sendo fundamental
o emprego de métodos imaginológicos combinados (dúplex-doppler
colorido, TC e arteriografia digital).
O tratamento clássico empregado é a ligadura ou excisão
cirúrgica do aneurisma, com ou sem esplenectomia.
Atualmente, entretanto, um número significativo de casos tem
sido tratado de forma extremamente bem sucedida através de técnicas
endovasculares de embolização, o que tem tornado o método
bastante promissor.
No caso 1 observamos uma evolução infreqüente de
fístula arterio-venosa esplênica pós-traumática,
com trombose espontânea, provavelmente por se tratar de fístula
de baixo débito.
Pancreatite
A freqüência da formação de pseudo-aneuurismas
arteriais em pacientes com pancreatite é estimada em 10%. A lesão
das paredes vasculares pelas enzimas liberadas na pancreatite é
o mecanismo fisiopatológico preconizado. Os vasos mais freqüentemente
acometidos são a artéria esplênica, a artéria
pancreaticoduodenal e artéria gastroduodenal, nesta ordem.
A angiografoia constitui o padrão-ouro no diagnóstico
dos pseudoaneurismas, sendo geralmente empregada para casos selecionados
(pancreatites complicadas por hemorragias, massas pulsáteis,
pré-operatório de doença pancreática crônica).
Em virtude de suas facilidades, a ultrassonografia constitui método
diagnóstico bastante empregado na avaliação das
pancreatites. O achado de imagens anecóides demonstráveis
nestes pacientes deve ser avaliado pelo Doppler a fim de se diferenciar
coleções fluidas (pseudo-cistos e coleções)
de lesões vasculares aneurismáticas.
Da mesma maneira os achados tomográficos de massas fortemente
realçáveis deve aventar sempre a suspeita de pseudoaneurismas,
exigindo um estudo arteriográfico subsequente.
Pós colecistectomia.
Hemobilia é uma causa incomum de sangramento gastro-intestinal.
Sua origem é difícil de ser caracterizada devido ao sangramento
intermitente. A endoscopia é diagnóstica em apenas cerca
de 30% dos casos, e a tríade clínica clássica (sangramento
digestivo, dor no hipocôndrio direito e icterícia) está
presente em 40% dos casos. Atualmente a maioria dos casos estão
associados a biópsias (e procedimentos intervencionistas de forma
geral). Hemobilia pós colecistectomia era muito pouco comum antes
do advento da laparoscopia, sendo observado um aumento de sua freqüência
com a difusão deste método. O sangramento geralmente ocorre
entre 6 a 120 dias após o procedimento cirúrgico.
A patogênese não está muito clara, mas postula-se
que lesão térmica ou mecânica nas artérias
cística ou hepática e no duto biliar comum são
responsáveis pelo pseudoaneurisma.
Conclusão
Embora raros, os aneurismas e pseudoaneurismas arteriais esplâncnicos
apresentam alta morbi-mortalidade. As manifestações hemorrágicas
apresentam grande dificuldade diagnóstica dada a origem aparentemente
obscura do sangramento, exigindo o emprego de métodos imaginológicos
combinados.
|
| |
|
|
| |
|
|