HOSPITAL DAS CLÍNICAS DA FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

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História do HC

 

 

A CAPELA DO HOSPITAL DAS CLÍNICAS POSSUI
OBRAS DE ARTE DE FULVIO  PENNACCHI, VICTOR BRECHERET E DI CAVALCANTI

 A Capela situada no 11o andar do Instituto Central, esteve presente desde o primeiro projeto da construção do Hospital das Clínicas. Contou com a orientação, do ponto de vista religioso e social, de Dom José Gaspar de Affonseca e Silva, 2o arcebispo da Arquidiocese  de São Paulo.

Inaugurada em 15 de maio de 1945, foi instituída  pela Lei 2.065 de 24 de dezembro de 1952, que dispunha sobre a criação de dois cargos  de capelão. Neste mesmo ano foram autorizados os serviços religiosos evangélicos, por ordem da Confederação Evangélica do Brasil.

A Capela do Hospital das Clínicas foi decorada por afrescos de  Fulvio Pennacchi, esculturas de Victor Brecheret e vitrais baseados em desenhos de Di Cavalcanti, tombados pelo Condephaat, pelo Decreto 13.426 de 16 de março de 1979.

Fúlvio Pennachi foi contratado, em 10 de dezembro de 1946, para a decoração pictórica das paredes da capela, onde  executou três composições figurativas em afresco ( técnica que consiste em pintar sobre a camada de revestimento, ainda úmido) representando: a “Anunciação da Nossa Senhora" , a "Ceia de Hemmaus" e o símbolo do "Divino Espírito Santo" (com treze raios folheados em ouro). 

Afrescos de Fulvio Pennacchi

Primeiro Esboço dos Afrescos
Anunciação de Nossa Senhora - 1947 (232x265cm)
Ceia de Hemmaus (Jesus na Casa de Pedro) 1947 (237x245cm)
Símbolo do Divino Espírito Santo
 

Fulvio Pennacchi nasceu em 1905, na Toscana, Itália. Estudou em Florença e diplomou-se em pintura pela Academia Real de Pintura de Lucca. Veio para o Brasil em 1929 estabelecendo-se em São Paulo. Entre 1930 e 1935 criou trabalhos a óleo como a “Cenas da Vida de São Francisco” e a série das “Obras de caridade Corporais e Espirituais”. A partir de 1935 executou vários trabalhos, entre murais, afrescos, ilustrações a óleo e cerâmica. Em 1951 participou da I Bienal de São Paulo.

 

Esculturas de Victor Brecheret

Cristo

Bronze medindo 230 x 200x0.42 cm, sem assinatura e sem data.

 

“Colocado junto ao altar-mór, a uma altura de cerca de 3 metros, representa a peça uma figura contraditoriamente vigorosa do crucificado. A propósito Brecheret deu ênfase à aparência de vigor físico, pois segundo ele, a imagem deveria dar impressão de força, já que numa Capela de hospital vai-se orar em busca de conforto e apoio; ora uma figura esquálida e agonizante não seria apropriada, além disso, o bronze é anterior às terracotas, e participa do momento de revivescência do espírito anatomista vigoroso do escultor do período dos nus maiollescos, fato que também se verifica em algumas figuras masculinas da Via Sacra, porém menos enfatizado".

Texto: Daisy V. M. Peccinini de Alvarado

 

 

 

São Paulo

 Bronze mede 277 x 110 x 0.65 cm, sem assinatura e sem data.

 

“Colocada sobre o umbral da porta de entrada, à altura semelhante do “Cristo, isto é, a 3 metros, a escultura além de enfrentar o problema de pouca iluminação, está mal localizada, o que faz perder o seu sentido monumental, apesar das grandes dimensões. Como o Cristo, possui uma expressão plástica de força, conscientemente plasmada, e acentuada pelo gesto enérgico do braço direito erguido para o alto, enquanto que o outro se apóia sobre uma espada pousada verticalmente, símbolo do seu martírio, foi decapitado com esta arma". 

Texto: Daisy V. M. Peccinini de Alvarado

 

 

 

Via Crucis

É composta por 14 Estações num total de 28 esculturas em terracota (argila cozida)  e madeira, medindo entre 40 a 70 cm realizadas na década de 40. As peças originais encontram-se, em comodato, na Pinacoteca do Estado, desde 12 de maio de 1982, por questão  de segurança e conservação. Foram substituídas por cópias únicas e autenticadas, em bronze, à pedido dos herdeiros de Victor Brecheret e custeadas pela Secretaria de Estado da Cultura.

 

I ESTAÇÃO
 Julgamento de Cristo -
  déc. 40 – terracota

A cena do julgamento de Cristo é composta de duas pecas separadas: em primeiro plano, Pilatos sentado, de aspecto sério, cuja figuração é bastante inspirada na estatuária romana; em segundo plano, Cristo, uma figura alongada, mas ascética, onde gravidade e alheamento são outras características. Se a concepção clássica está presente, nem por isso deixa de estar impregnada de flexibilidade e expressão, através de uma topografia acidentada das superfícies, onde observamos certa agressividade de detalhes do modelo, tensão muscular, tratamento dos cabelos e barba, olhos oblíquos.

Texto: Daisy V. M. Peccinini de Alvarado

   
II ESTAÇÃO
Cristo toma a cruz sobre os ombros - década de 40 - terracota
 
A severidade do acusador, de um lado e, do outro o dramatismo de Cristo, não tão acentuados como nas figuras dos primeiros tempos do modernismo, são as dominantes da composição. Elementos dramáticos, compassados pela gravidade das figuras, o gesto de Cristo, da cabeça estirada para trás e as massas ondulantes das vestes compõem a cena.

Texto: Daisy V. M. Peccinini de Alvarado

   

III ESTAÇÃO
Primeira queda de Cristo

 déc. 40 - terracota

A figura do centurião parece um fragmento da estatuária clássica, em volume e serenidade, enquanto o Cristo, em posição encurvada, sinuosa e complicada, de partes que se sucede em orientações oblíquas e divergentes, lembra soluções hieráticas bizantinas e românicas.

Texto Daisy V. M. Peccinini de Alvarado

   
IV ESTAÇÃO
Encontro de Cristo com a mãe - déc. 40- terracota
 

Brecheret criou um efeito comovedor, colocando as duas figuras em oposição, que em impulso de volumes arredondados se entrecruzam. O encurvamento da figura humana a partir dos joelhos é uma das soluções formais das mais usadas pelo escultor desde a década de 20, assim como o emprego, de volumes cilíndricos na figura da Virgem e do Cristo.
 
Texto: Daisy V. M. Peccinini de Alvarado
   
V ESTAÇÃO
Cristo é auxiliado
por Simão Cirineu -  déc. 40 - terracota

No rosto do Cristo cabisbaixo que segue atrás da Cruz estão os traços semelhantes à cabeça do Cristo, de 1920. As figuras se apresentam de perfil, seguindo um ritmo dinâmico de linhas curvas. Na força e rudeza do rosto de Simão Cirineu, há vestígios da arte românica, enquanto a rigidez é atenuada pela ondulação das pregas e dos músculos.

Texto: Daisy V. M. Peccinini de Alvarado

   
VI Estação
Verônica enxuga o rosto de Cristo
-  dec. 40 - terracota
 

Em contraste com o Cristo, exausto, quase genuflexo, situa-se a figura elegante, amaneirada, de Verônica, exibindo o pano com a efígie de Jesus. A forma feminina evoca os modelados lisos e os volumes polidos da década de 20. A experiência em arte religiosa desse momento se mostra na expressão do primitivismo românico, na serenidade da arte grega ou nas experiências cubistas-brancusianas, portanto, numa mistura de tendências e vivências da escultura de Brecheret em décadas passadas.

Texto: Daisy V. M. Peccinini de Alvarado

   
VII ESTAÇÃO
Segunda queda de Cristo
 déc. 40- terracota

A figura do Cristo estendida em horizontal, mais dramatizada na turbulência dos cabelos, barba e pregas das vestes, opõe-se à verticalidade da forma do verdugo, estática, serena e expandida em volumes lisos.

Texto: Daisy V. M. Peccinini de Alvarado

   
VIII ESTAÇÃO
Cristo fala às mulheres
de Jerusalém

 déc. 40 - terracota

Sob a cruz, Cristo ergue as mãos em gesto solene para a mulher com uma criança, nas quais se verificam a estilização, a suavidade ressaltada pelo modelado em volumes polidos, semelhante ao da Verônica, que contrasta com o tratamento formal de efeito agressivo, rude no seu primitivismo, na figura do Messias.

Texto: Daisy V. M. Peccinini de Alvarado

   

IX ESTAÇÃO
Terceira Queda de Cristo

 déc. 40 - terracota

Ao figurar Cristo caído pela terceira vez, Brecheret acentua-lhe a exaustão, enquanto na representação da primeira queda, III Estação, a figura de Cristo está ajoelhada, em elegantes arabescos de ziquezagues de volumes orientados obliquamente, e na Segunda Queda, VII soerguendo-se discretamente em movimento ascendente em direção à cabeça , em posição inclinada, mas não totalmente horizontal.
Finalmente, na IX Estação, a figura assume posição horizontal, sendo que a parte superior do tronco descreve uma seção de curva descendente que termina na extremidade da cabeça tombada para baixo. A austera aparência do ancião em pé, que com serenidade indiferente segura a dobre de sua veste ondulante, como que ressalta a patética composição do Cristo caído.

Texto: Daisy V. M. Peccinini de Alvarado

   

X ESTAÇÃO
Cristo é despojado de suas vestes
 déc. 40 - terracota

Na composição da cena, há como que uma reversão de valores dinâmicos: se até Cristo dinamizara preponderantemente as cenas, agora, ao contrário, permanece num nível de estática resignação e alheamento, enquanto o acento dramático e a movimentação cabem à figura do carrasco, que se ajoelha com o pedaço de tecido que passará a envolver os quadris da vítima, uma vez despido de suas vestes.

A idéia de movimento de impulso é expressa pelo claro alongamento dado às pernas dobradas e ao troco desta última figura. Outro aspecto importante são as freqüentes incisões que marcam as peças religiosas e as de inspiração indígena de anos posteriores, e que parecem surgir, pela primeira vez, nessa figura de carrasco. São incisões, e não relevos delgados de massa que marcam as pregas e se irradiam de um ponto abaixo do ombro esquerdo para diferentes direções. Por outro lado, o tratamento do rosto e da barba apresenta ressonâncias das figurações dos Profetas de Aleijadinho.

Texto: Daisy V. M. Peccinini de Alvarado

   
XI ESTAÇÃO
Cristo é pregado na cruz
- déc. 40 - terracota

Novamente aparece a relação da figura vertical, passiva, nesse caso do carrasco, com a horizontal do Cristo, mais dramática, mais complexa, em detalhes agudos, onde também surgem algumas incisões, se bem que mais discretas, no tronco do Crucificado.

Texto Daisy V. M. Peccinini de Alvarado

   

XII ESTAÇÃO
Cristo morre na cruz
dec. 40 - terracota

A Virgem embuçada, constrangida, junto à cruz, lembra a figura das carpideiras de túmulos de tradição gótica. O Cristo pendente no madeiro guarda força e robustez de formas, sem pretender o ascetismo e despojamento da série de crucificações que o artista executou posteriormente.

Texto: Daisy V. M. Peccinini de Alvarado

 

   
XIII ESTAÇÃO
Descida da Cruz, déc. 40 - terracota

A Pietá produz um efeito dramático pela agitação de relevos ondulados das superfícies de vestes, que servem de elementos intermediários das passagens de volumes entre as duas figuras. Acresce-se ainda o recurso expressivo das bocas entreabertas. Como nas outras estações, há uma incerteza do artista, como se através da Via-Sacra formulasse seu vocabulário formal posterior, alternando a uma forma mais organizada, construída, uma forma mais expressiva, mais orgânica.

Texto: Daisy V. M. Peccinini de Alvarado

   
XIV ESTAÇÃO
Sepultamento de Cristo
- déc. 40- terracota

Nesta composição que encerra a Via Sacra, há um movimento gracioso de curvas e relevos arredondados que circundam a cabeça da Virgem, inclinada para a direita, prosseguindo pelos braços. Os volumes descrevem arabescos que contrastam com a metade inferior do corpo, que é despojada e cilíndrica, servindo habilmente como segundo plano para a cabeça de Cristo, que jaz aos pés da mãe, em posição horizontal. Forma com ela um ângulo reto, cujo vértice é o cimo da sua cabeça ovalada e de olhos oblíquos.

Texto: Daisy V. M. Peccinini de Alvarado

 

Victor Brecheret nasceu em São Paulo, Capital, em 22 de fevereiro de 1894. Viajou para a Europa em 1913 e fixou-se por seis anos em Roma, depois de uma temporada em Paris. Voltou a São Paulo em 1919, participando com 12 obras da Semana da Arte Moderna, em 1922.Em 1920, por encomenda do governo paulista, concebeu sua obra mais grandiosa, o “Monumento às Bandeiras”. Em 1921 Brecheret expôs em mármore “Eva”, instalada na Praça do Anhangabaú. Foi premiado em Paris com a escultura “Templo da Minha Raça” e  figurou em Roma na exposição internacional de 1925. Em 1951,  foi premiado como melhor escultor nacional na I Bienal de São Paulo. Faleceu em 18 de dezembro de 1955.

 

Vitrais

Nas paredes da Capela, há um conjunto de vitrais, com desenhos originais de autoria de Emiliano Di Cavalcanti (1897-1976), cuja execução, contudo, não teria recebido “(...) a aprovação do artista em virtude das modificações havidas" (Condephaat: resolução de 15/5/1970). Os vitrais  dividem-se em três grupos com temáticas semelhantes: dois pares de vitrais com lírios e palmas cercando o vitral central representando um anjo,  um grupo  composto de  quatro vitrais com símbolos dos Quatro Evangelistas - Lucas (touro), João (águia), Mateus (anjo) e Marcos (leão) e um vitral central com a representação do Espírito Santo (pomba).”

 

Emiliano Di Cavalcanti nasceu em 1897, no Rio de Janeiro, transferindo-se para São Paulo onde ingressou na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Começou a pintar, nesta época, tornando-se amigo de Mário e Oswaldo de Andrade. Fez sua primeira viagem à Europa em 1923, permanecendo em Paris até 1925. Freqüentou a Academia Ranson, expôs em diversas cidades: Londres Berlim, Bruxelas, Amsterdã e Paris. Retornou ao Brasil em 1926. Seguiu fazendo ilustrações, e criou os painéis de decoração do teatro João Caetano no Rio de Janeiro. Nas décadas seguintes participou de exposições coletivas, salões nacionais e internacionais, e da I Bienal de São Paulo.

 

 

 

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